No dia 29/10/2026, a Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo sabatinou os três presidenciáveis ao Centro Acadêmico XI de Agosto. As entrevistas estão completas no site, no Instagram e também no Youtube (sim, em vídeo!). Esta é a entrevista com Matheus Cunha, candidato a presidente do XI pela chapa Amanhã.
Apresentação e Trajetória
Entrevistador: Sejam muito bem-vindos à primeira entrevista com os presidenciáveis do XI pela Academia de Letras. Eu me chamo Davi Moura, sou presidente da Academia de Letras, e eu estou aqui com o Matheus Cunha, que é presidenciável da Chapa Amanhã.
Matheus Cunha: Olá a todos e a todas. Queria dar boa tarde, bom dia, boa noite; não sei que horas vocês vão estar assistindo. Queria primeiro dar parabéns pela iniciativa. A gente está vivendo uma conjuntura política em que o debate político se faz cada vez mais imprescindível, de forma que essa nossa eleição, dentro da São Francisco, vai ser, obviamente, também reflexo da nossa conjuntura nacional, municipal ou estadual. Então, queria parabenizar por esse espaço, agradecer pela Revista Arcádia, e agradecer também pela Academia franciscana aqui, e desejar boa entrevista, não só para mim, mas também para os meus concorrentes, Samuel e Ricardo Botto, e desejar boa entrevista agradecendo pela iniciativa.
Entrevistador: Perfeito. Obrigado, Matheus. Então, vamos já apresentar um pouco a chapa antes de começar com as perguntas. Eu acho muito interessante isso. Eu queria entender um pouco mais a sua trajetória, principalmente na política franciscana, como franciscano em si. Sei que você é da turma 197, então você já tem 3 anos de trajetória. E também queria saber como surgiu a Chapa Amanhã.
Matheus Cunha: Perfeito, Davi. Como o Davi já falou, meu nome é Matheus Cunha. Acho importante, inclusive, começar aqui falando que não se trata apenas da minha trajetória; a chapa tem pelo menos dez trajetórias diferentes, e todas elas importam na hora da nossa construção coletiva. Primeiro, então, apesar desse disclaimer, dessa nota de rodapé, destaco que entrei na São Francisco em 2024. Eu venho do movimento secundarista, participei de um colégio de aplicação, à época na Universidade Federal de Viçosa, que é considerado o principal colégio público do país, assim, o melhor, de acordo com o Enem. Embora esses dados sejam super questionáveis a gente precisa ser um pouco mais crítico quanto a esses métodos de avaliação, à existência deles.
Mas venho desse lugar. O Coluni me ajudou muito enquanto ensino médio, na minha formação cidadã crítica. Eu venho do movimento estudantil daquela época, fui diretor do grêmio estudantil do Coluni, mas também existe um Matheus antes do Coluni, que é o Matheus que foi impactado em 2018, quando foi meu despertar político pelo assassinato da Marielle Franco. Fiquei muito assustado. Posteriormente, com a eleição do Jair Bolsonaro, felizmente preso e inelegível nesse momento. Mas eu fui sendo moldado por esses acontecimentos nacionais, pelos acontecimentos locais ali também no Coluni. Cheguei na São Francisco com muito entusiasmo, estudo Direito por conta desse entusiasmo da vida política, da vida dos direitos, da nossa constituição cidadã. Cheguei na 197, então, muito entusiasmado para isso, e sempre me coloquei, enquanto na São Francisco, um ativista militante independente. Nunca fui filiado a nenhum dos coletivos, a nenhum dos partidos, apesar de entender a importância dos partidos numa democracia partidária.
Mas nunca me vi nesse lugar anteriormente, por conta da independência, por conta de conseguir construir, com coletivos diferentes, uma ação para o bem comum. Essa é a minha trajetória. Fui comandante de greve da greve de 2026, uma greve que reivindicava política de permanência, melhoria do bandejão. Reivindicava ainda, na política de permanência, o aumento do PAPFE, o aumento das bolsas PUB, para que, de fato, a Universidade de São Paulo, e aqui em especial a Faculdade de Direito da USP, fosse esse lugar não só que aprovou as cotas, mas que aprovou uma permanência contínua desses corpos que ainda não estavam na faculdade, mas a partir de 2018 começaram a estar. Na greve, eu vi um cenário muito assustador, assim, de muitas pessoalizações de conflitos, de pouco debate político, de muita desmobilização. E uma desmobilização meio paradoxal, porque a gente tem um centro acadêmico hoje que é mobilizado por forças governistas, do governo Lula, então, que, em tese, são forças para reivindicar a permanência, mas que, infelizmente, não vi isso acontecendo na greve.
Mas acho importante destacar aqui que, apesar da greve ter me construído enquanto militante, enquanto franciscano aqui, esse coletivo, Amanhã, não foi pensado no momento da greve, ele foi pensado posteriormente, em especial nos últimos meses, quando a gente viu que ia se aproximar do bicentenário. E existe uma preocupação: “qual bicentenário nós queremos construir?”. Existe uma preocupação de ser o bicentenário do amanhã, não do amanhã coletivo, mas do amanhã futuro. Um bicentenário que seja construído coletivamente, um bicentenário que seja de todos os corpos, de todas as experiências, de todas as sexualidades dessa faculdade, de todos os gêneros. E um bicentenário de todos mesmo, e de todos inclui as entidades, as extensões e os coletivos que fazem essa faculdade.
É um pouco do que sou. A minha chapa é uma chapa que se reivindica enquanto uma esquerda independente, isto é, apartidária. Mas apartidária não no sentido de neutra, não no sentido de omissa. Mas apartidária para defender os interesses da São Francisco e verificar quais são esses interesses dessas Arcadas. Umas Arcadas que têm, em sua história, muita importância política, social, cultural. Veja, Fernando Haddad vem dessa faculdade, Zé Celso do Teatro Oficina vem dessa faculdade. Então, é uma faculdade que muito contribui, apesar das contradições também que esse território permeia. Mas é uma faculdade que muito contribui para os nossos pensamentos, e é por isso que é importante ver quais são os interesses desse local.
Gestão Financeira e Fundo do XI
Entrevistador: Perfeito. Muito obrigado, Matheus. Então, partindo já para a primeira pergunta, eu queria perguntar sobre gestão financeira e responsabilidade fiscal. O centro acadêmico vem enfrentando déficits operacionais recorrentes nas contas mensais e resgates contínuos do fundo de investimento do XI, o famoso Fundo do XI. Qual é o plano concreto da sua gestão para estancar o rombo financeiro, e qual limite será adotado para o uso do fundo patrimonial, sem comprometer os repasses obrigatórios às entidades?
Matheus Cunha: Perfeito. Eu começo, então pelo final, sobre a questão do limite. O limite que a gente vai adotar é um limite estatutário. A gente já tem um estatuto que prevê no FIXI, que é o apelido do Fundo do XI, é um limite estatutário de 0,5%, mais o IPCA, obviamente. Mas esse limite deve ser adotado até para a gente não interferir no patrimônio do XI e não desfalcar as futuras gerações de franciscanos que aí estão. Acho muito relevante essa questão sobre as entidades. A gente passa por momentos em que as entidades ficam, de fato, assustadas com a possibilidade de ficar sem repasse, e o Fundo do XI existe para isso, que é para a comunidade se autogerir.
Então, eu destaco que o limite a ser utilizado aqui é o de 0,5%, mais o IPCA, que é o limite estatutário, salvo algumas exceções que o momento dirá. E exceções, eu garanto, são exceções, não são regra, e por isso tem esse nome. E, agora, respondendo à primeira parte da pergunta, como que a gente estanca isso, como que a gente permanece com uma política fiscal que seja autônoma, que seja, de fato, próspera: A minha chapa propõe aqui o chamado endowment. Veja, eu sou do Direito Penal, como a gente estava conversando aqui nos bastidores, mas tenho uma excelente equipe na tesouraria, que titularmente é composta pelo Fabrício e pela Catharina.
E aí eles me explicaram de maneira muito concisa, eu espero conseguir explicar isso para a comunidade franciscana também, o que seria esse endowment. O endowment é um fundo de doações. “Ai, Matheus, isso já foi aplicado em algum outro lugar?” Podemos dizer que sim. É muito comum fora do país, mas aqui no Brasil a gente tem o exemplo do Fundo Sempre SanFran, e a gente também tem o exemplo do Amigos da Poli. Amigos da Poli, inclusive, que é um fundo muito bem-sucedido, com mais de 70 milhões em caixa, que são feitos a partir de doações desses antigos alunos. Por que endowment e não o FIXI em si? A gente sabe bem que o FIXI passa, o FIXI é Fundo do XI. Ao longo da entrevista, eu vou dando esses complementos, porque acho importante, inclusive, para termos das pessoas saberem mais a respeito.
Mas o Fundo do XI, a gente passa por um momento de instabilidade de credibilidade. A gente sabe que teve gestões no passado em que houve muitos saques extraordinários, a gente sabe que houve muita, por conta desses saques extraordinários, instabilidade por parte dos nossos doadores por conta disso. Então, a ideia é separar isso, até para não mexer com o patrimônio que a gente já tem, e criar esse endowment, esse fundo de doações, para pensar, de fato, no bicentenário do Amanhã. Destaco aqui que é um bicentenário que não pensa os 200 anos atrás, não só, mas projeta os 200 anos para frente. Pensando nessa projeção de 200 anos à frente, a gente tem esse endowment como um fundo que pode financiar novos projetos do XI, novos projetos na São Francisco, nas Arcadas, e que pode subsidiar muitas coisas para o interesse do franciscano. É o nosso cargo-chefe na tesouraria, esse endowment, e tenho certeza que a gente, num debate, conseguirá conversar com a São Francisco a respeito disso, e conseguirá, como o Fabrício e a Catharina muito bem conseguiram me passar, mesmo sendo do DPM, e em tese não tendo muita afinidade com esses números, mas eu tenho, conseguir passar para a São Francisco a importância do endowment, e a importância, para além do endowment, mas a importância de se pensar esforços para captar esses recursos, não para hoje, não para o dia de amanhã, mas para o futuro como um todo.
Permanência Estudantil e Moradia
Entrevistador: Muito obrigado, Matheus. Agora eu passo para a permanência estudantil e moradia. Diante da insuficiência de auxílios financeiros e dos desafios estruturais enfrentados pelas estudantes em situação de vulnerabilidade, como o XI de Agosto atuará de forma prática junto à Reitoria e à Diretoria para viabilizar a ampliação de programas sociais de pertencimento, o suporte de assistência social presencial e a captação de recursos para aprimoramento da política de moradia estudantil, principalmente a Casa do Estudante, mas também o CRUSP?
Matheus Cunha: Como eu disse, eu fui parte do comando de greve, fui um desses comandantes que muito aguerridamente construiu essa greve de forma coletiva. E esse tema da permanência é um tema da greve, um tema que, inclusive, com a greve tivemos alguns avanços, alguns dirão ínfimos, mas avanços que foram importantes naquele momento e continuam sendo. O primeiro ponto, então, é quanto à pressão com a Diretoria e com a Reitoria, uma pressão que é uma pressão política e uma pressão para cobrança mesmo desses avanços que a gente teve. Quando a gente está falando de permanência, e esses programas, o PAPFE, o programa PEEG, o programa PUB e o Adote, que é de maneira privada, então não entra aqui nesse assunto.
Mas quando a gente está falando desses programas, a gente está falando de cobrar os nossos superiores daqui da faculdade, a gente está falando da Diretoria e a gente está falando da Reitoria, a nível USP, de que seja, de fato, implementado o que nos foi garantido lá na greve. Mas não só. A luta não acaba na greve. A luta se perpassa, e os 200 anos de São Francisco também vão servir para ser um dos 200 anos que reivindica maior permanência. Então, a gente, de maneira muito política, de maneira muito prática e pragmática, vai cobrar a Reitoria e a Diretoria isso.
E, claro, ouvindo muito o que a São Francisco precisa, mas não só. Quando a gente está falando de USP, a gente não está falando só de São Francisco, né, a gente está falando de uma integração com uma universidade de São Paulo, que não é nem só na cidade de São Paulo, né, a gente tem outros campos por aí. E a gente pensa em atuar de maneira conjunta, política e prática. Sobre a questão da assistência social, da Casa do Estudante e do CRUSP, eu acho aqui importante diferenciar o CRUSP da Casa do Estudante. O CRUSP na USP, de maneira geral, mas a Casa do Estudante é um cenário muito próprio nosso, aqui da São Francisco. Por ser um cenário muito próprio nosso, é um cenário que, enquanto associação, a Casa do Estudante requer autonomia, que não é o caso do CRUSP. Uma autonomia da Casa do Estudante nos dá limites, e limites fundamentais, porque a gente está falando da casa das pessoas, a gente está falando da casa dos franciscanos ali, que ali estão naquela moradia.
Então, acho importante primeiro ressaltar que a Casa do Estudante tem autonomia. A autonomia da Casa do Estudante será prezada, será defendida, e que será defendida porque é essencial que a Diretoria da Casa tenha poder de direção, de gestão sobre a casa. De modo que resta ao XI, e cabe ao XI, prezar por ser ponte de diálogo na questão de captação de recursos, né, trazendo de novo a questão do glorioso bicentenário. A gente, enquanto XI de Agosto, enquanto entidade representa as outras entidades e os estudantes dela, a gente tá aí, então, para fazer essa ponte com a Diretoria eleita da Casa, que agora vai ser outra, mas qualquer que seja, estaremos juntos pelo bem da casa, pelo bem da São Francisco. E destacando que essa autonomia não quer dizer também deixar a casa sozinha, trabalhando sozinha. Pelo contrário, trabalhando de forma conjunta, mas também não falando pela casa. A casa tem sua voz e a sua autonomia deve ser prezada.
E, claro, em todas as necessidades a gente atuará de forma conjunta, a gente fará, inclusive, ecoar essa voz e pleitear o que a casa também quer que se pleiteie. Então, assistência social, a gente sabe que tem questões de infraestrutura que podem ser melhoradas com a captação de recursos. Então, o centro acadêmico, aqui, falo pela Chapa Amanhã, a gente tem que prezar por essa ponte de diálogo, pelo diálogo constante, pela escuta. Mais do que diálogo, escuta constante com a direção da casa, direção eleita, e também os estudantes que a compõem. A gente está falando de permanência, moradia digna para os nossos estudantes, e é isso que a nossa chapa se propõe.
Saúde Mental, Acessibilidade e Inclusão
Entrevistador: Perfeito. Obrigado, Matheus. Agora, a terceira pergunta é sobre saúde mental, acessibilidade e inclusão. O acolhimento psicológico e as condições materiais de permanência para estudantes neurodivergentes e PCDs ainda sofrem com gargalos burocráticos e institucionais. Quais mecanismos permanentes e protocolos de acolhimento o XI de Agosto implementará para garantir acessibilidade sensorial, pedagógica e acompanhamento contínuo?
Matheus Cunha: Eu começo respondendo essa pergunta, lembrando da existência da nossa salinha, salinha não, uma sala de acessibilidade e inclusão, que inclusive é nesse andar, no terceiro andar, a gente está na sala Lygia Fagundes Telles, fica no terceiro andar da faculdade, aqui perto da, inclusive, da sala da AlZ. E lembro da existência dessa sala porque é uma sala muito importante e que, infelizmente, não se fala muito sobre ela. Primeiro ponto, então, para responder essa pergunta, é lembrando da existência dessa sala e mais, se propondo a falar mais sobre ela. O que é falar, só falar dessa sala basta? Não basta. Nós precisamos também divulgar de maneira mais efetiva, e a gente tem aí um Instagram do XI, um LinkedIn, muito prósperos que podem nos ajudar nessa, mas também tem a conversa do corredor, tem também o estar presente nas Arcadas para fazer parte das Arcadas, também é uma forma de divulgação, de propaganda e de comunicado. Falar sobre essa sala, compartilhando quais são os critérios para uso, quais horários são permitidos, porque são focos que acaba que a comunidade franciscana não tem muito acesso, seja por falta de transparência, seja por falta de comunicados mesmo.
A nossa ideia aqui é sempre ser informativos, sempre compartilhar essas informações. É claro que muito cabe ao XI, mas também muito cabe à Representação Discente, então, da maneira que se conseguir trabalhar de forma conjunta com esses órgãos da própria São Francisco para se divulgar mais a respeito. A gente tem questões de saúde mental, não só na São Francisco, como no país inteiro, que a gente tem sido muito angustiado por questões da nossa época. O nosso debate político, o nosso debate enquanto sociedade, tem sido muito perpassado por essa questão de corpos adoecidos, seja de ansiedade, seja de depressão, seja de pânico. Mas não só essas questões psiquiátricas, né, nós também temos questões de neurodivergência.
É fundamental ser escuta ativa para esses estudantes, para essas estudantes, divulgar os mecanismos que a gente tem, mas também, e aí vai questões de permanência anteriores, fazer sempre pressões, seja com a Reitoria, seja com a Diretoria, para que a gente amplie o que a gente tem e fortaleça o que a gente tem. E mais, eu digo até que a gente está chegando no momento de provas no São Francisco, foi divulgado agora o mapa de provas, inclusive, falo de quinta-feira, né, mas foi divulgado agora o mapa de provas, e o XI de Agosto pode, de maneira muito efetiva, enviar um ofício à Diretoria, por exemplo, para pedir que os professores fiquem mais atentos quanto a pedidos especiais na semana de provas.
É uma questão pragmática, por exemplo, uma questão prática, mas que pode ser muito útil aos estudantes, claro, entendendo as Arcadas enquanto um lugar que deve ser, ainda não é, mas deve ser, de pleno acolhimento, que deve ser de plena diversidade, inclusive psíquica e neural, porque a São Francisco só pode ser entendida a partir dessa diversidade mesmo.
AEX e Ensino Jurídico
Entrevistador: Perfeito, Matheus. Agora, falando um pouco mais sobre isonomia de ensino, AEX, inovação acadêmica e, principalmente, também sobre as entidades. Em 2027, a curricularização das extensões, as famosas AEX, passa a cobrir 100% das turmas de graduação com o encerramento da turma 196. Ao mesmo tempo em que persiste a disparidade histórica da oferta de optativas entre os turnos matutino e noturno. Como o XI atuará na comissão de graduação para garantir a paridade entre os turnos e desburocratizar as AEX, sem retirar a autonomia das extensões?
Matheus Cunha: Autonomia é uma palavra que nos gere muito. Nós, enquanto Arcadas, queremos ser autônomas, queremos essa liberdade da independência mesmo. Então, é interessante que nas nossas entidades, nas nossas extensões, nos nossos coletivos, a gente zele por esse valor que nos é tão fundamental. Quase a nossa pedra fundamental aqui que tem no prédio. Mas essa questão da comissão de graduação, eu acho importante diferenciar quanto à atuação da Representação Discente, claro que as coisas acabam se confundindo, a gente tem também um debate político na São Francisco em que não se esclarece muitas coisas, essa, inclusive, é uma vontade nossa de esclarecer muitas coisas, mas a Comissão de Graduação, ela tem seus RDs, sua Representação Discente, e o XI de Agosto, ali, enquanto entidade política que representa os estudantes politicamente, a gente deve sempre atuar de forma coletiva, de novo, de forma conjunta, com a RD, para que a RD represente esses estudantes e para que a RD nos conte, a partir da comissão, todos os estudantes, porque foram eleitos também para isso, assim como o XI, quais são essas necessidades dos estudantes.
Mas sobre a questão da AEX, vale dizer, questões de extensão são questões constitucionais, o eixo ensino, pesquisa, extensão, está na Constituição enquanto base constitucional para a existência da universidade. Mas eu destaco que a questão da AEX, a 195 vai sair agora, então a 195 vai encerrar esse período, vamos ser 100% AEX. A questão da AEX nos é muito cara porque, por vezes, e a gente recebe enquanto estudantes mesmo, não posso falar enquanto o XI, porque ainda não sou, espere e conto com o seu voto para isso, mas enquanto estudante a gente escuta muito, “ai, como fazer para ganhar AEX, como fazer, como fazer…” e a resposta é simples atualmente: ou se faz optativas extensionistas, como é o caso de uma que eu sou monitor, inclusive, que é o Direito e Equidade de Gênero, que se ganha AEX, ou se faz extensões, que também se ganha AEX.
Mas nós pensamos, enquanto XI de Agosto, propor, e a gente vai precisar propor em conjunto com a RD, que a gente aumente esse oferecimento de AEX nas próprias optativas mesmo, nas próprias disciplinas, é que a gente está falando de uma universidade que dará aulas e tal. Então, nós tínhamos, em um passado, uma disciplina, inclusive, de uma extensão que era a Enactus, que essa disciplina não existe mais, mas chamava Difusão da Cultura Jurídica, e essa disciplina ofertava créditos, fui monitor dessa disciplina também, essa disciplina ofertava créditos, e é uma disciplina muito importante para, além de ofertar créditos, a gente não está falando só de uma obrigação, mas também para o conhecimento que se estende à sociedade, extensão é para isso, a AEX é para isso, para juntar a comunidade com a sociedade lá de fora, porque não são indissociáveis.
Então, parte do nosso projeto político aqui é estar sempre conversando com as extensões para garantir ali a autonomia, nosso programa, inclusive, de gestão é focado e pautado muito na escuta com as extensões, muitas propostas nossas vêm daí, o que não quer dizer apoio das extensões, apoio partidário das extensões, nada disso, justamente porque a gente defende muito essa autonomia, essa independência, mas parte, e essa é uma proposta que fica, que é aumentar o número de disciplinas em conjunto com a RD, destaco isso, em conjunto com a RD, disciplinas que dão AEX, disciplinas que podem vir das nossas próprias extensões. Dei o exemplo aqui da Enactus, mas tem infinitas outras extensões que podem e devem e vão, eu sei, colaborar para isso, para expandir para os nossos alunos o oferecimento de AEX.
Combate às Opressões e Diversidade
Entrevistador: Perfeito. Muito obrigado, Matheus. Agora, partindo para a quinta questão. Combate às opressões e diversidade no corpo docente. A aplicação das políticas de cotas enfrenta entraves na faculdade de Direito. Queria saber, principalmente, quais são os protocolos que o XI adotará para apurar possíveis denúncias e combater o racismo, o machismo, a misoginia e a LGBTfobia nas Arcadas.
Matheus Cunha: Como você bem falou, Davi, a política de cotas foi muito importante para a nossa história, foi não, é, permanece, com a reforma da lei de cotas continua, felizmente, trazendo diversidade para as Arcadas, para as outras universidades do país, mas não basta, não é suficiente só a lei de cotas, a gente precisa permanecer, a gente precisa de uma política de permanência muito forte. E o que é permanência? Permanência é se sentir seguro dentro dessas Arcadas, é sentir acolhido, é se sentir presente aqui dentro, é se sentir feliz indo nas festas, ocupando as extensões, ocupando essas Arcadas, ocupando a RD, que seja, o XI, permanência é segurança para as nossas estudantes, para os nossos estudantes. Pensando nisso, a gente prevê a instalação, antes de tudo, sendo do Direito Penal, preciso fazer essa nota de rodapé, o XI de Agosto não pode ter poder de polícia, isso só é competência do Estado, é o monopólio da força e o monopólio de investigações na seara policial.
Feita essa nota de rodapé do Direito Penal, apesar disso, a gente pode sim prever e vai, a gente tem como pauta nossa a instalação de ouvidorias específicas. A faculdade já tem, e é bem importante que tenha mesmo, mas a gente precisa ampliar, que é a ouvidoria de gênero. Mas a gente precisa ampliar isso, como eu já disse, então a gente defende uma ouvidoria de raça, uma ouvidoria para averiguar mesmo questões de opressão quanto à classe, uma ouvidoria sobre, e aí dar fortalecimento à ouvidoria de gênero, porque a política, aliás, a violência de gênero nas Arcadas, porque na sociedade em geral, tem aumentado de forma muito, infelizmente, exponencial.
Mas também uma ouvidoria relacionada aos corpos LGBTQIAPN+, pensando até que a gente está falando de um projeto de universidade que a gente quer construir, que prevê também cotas para pessoas trans, e a nossa luta também é para defender essa pauta. E pensando na cota para pessoas trans, a gente precisa também assegurar, numa futura aprovação dessas cotas, a permanência dessas pessoas aqui. Então, já prever essa ouvidoria é, primeiro, proteger as pessoas que já estão aqui, mas também as que vão entrar.
Então, eu queria encerrar essa pergunta dizendo que o primeiro protocolo é de acolhimento à vítima. E que quando a pessoa for, eu não gosto do verbo denunciar, mas for relatar algo para o XI de Agosto, que seja acolhida, que seja efetivamente ouvida, que seja acalmada quanto às suas muitas angústias, porque passar por violência dentro dessas Arcadas, eu sei, imagino que todos, na verdade, que estão aqui dentro dessa sala sabem, e todos que estão lá fora nas Arcadas também sabem disso, passar por violência nessas Arcadas é estar convivendo com a violência todos os dias, porque todos os dias nós precisamos ocupar esse prédio.
Então, o primeiro de tudo, do protocolo, é o acolhimento à vítima. Mas também a gente precisa treinar a gestão, e aqui, no caso da Chapa Amanhã, a gente precisa fazer formações de como acolher essa vítima, mas para além do acolher, o depois, passar para instâncias institucionais, passar por essas ouvidorias que a gente propõe, e tudo isso para que o espaço das Arcadas seja um espaço seguro, seja um espaço de permanência, seja um espaço de acolhimento. É isso que nos importa.
Trabalho, Estágio e Vida Universitária
Entrevistador: Agora, falando um pouco sobre a situação do estágio e de condições de trabalho nas Arcadas. A rotina das estudantes no Largo de São Francisco é marcada por um malabarismo diário entre a exigência acadêmica, os compromissos externos que garantem o sustento e a inserção prática na área, e a busca por momentos de lazer e saúde mental. Essa sobrecarga constante frequentemente afasta os estudantes da participação política e da vida universitária. De que forma o XI de Agosto atuará para centralizar o apoio à rotina discente, oferecendo orientações práticas sobre direitos, flexibilidade de horários e rotinas, garantindo que o centro acadêmico seja um ponto de apoio real para quem precisa equilibrar as demandas dentro e fora das Arcadas?
Matheus Cunha: É interessante como o eixo da permanência perpassa todos os temas que a gente tem falado até agora. Eu acho que eu me repeti, a gente está indo na pergunta seis, né?
Nas seis perguntas eu certamente falei sobre permanência, porque precisa ser o nosso tema, precisa ser a nossa preocupação. A gente está, enquanto projeto político, a gente precisa defender um novo PL da lei, a nova lei de estágios, que é uma lei que precisa prever, e essa da nossa seara política, precisa prever uma fiscalização maior desses estágios, precisa prever o aumento na bolsa do TJ, por exemplo, que preveja vale-transporte, vale-refeição, tudo isso a partir desse projeto de lei que precisa ser pautado, já foi pautado muitas vezes nessas Arcadas, me lembro até que na greve teve um evento, uma roda de conversa a respeito disso, porque justamente antecipar a exploração do mercado de trabalho para a época da graduação faz com que aquele graduando, aquela graduanda, antecipe de fato a vida do trabalho e perca o momento da graduação. Eu estou dizendo aqui muito de forma hipotética, mas não é hipotética a situação, a gente está vendo aí no dia a dia dessas Arcadas que as pessoas já antecipam.
E por antecipar, como a sua pergunta bem prevê, ela perde momentos políticos, perde eventos importantes nas Arcadas, e sendo ano que vem o ano do bicentenário, imagino não, sei, que terão eventos grandiosos a respeito disso, precisam ser eventos que também tenham horários compatíveis com a realidade das Arcadas. Não dá para fazer um evento que seja três horas da tarde, porque a gente está falando de uma comunidade que não vai conseguir vir até aqui, ocupar esse espaço, porque muitas vezes estão no estágio, quando não estão no estágio precisam também estudar para a faculdade então pensar um XI do Amanhã é pensar um XI que esteja compatível com essa realidade, uma realidade de estágio, sim. E não é só maldizendo o estágio que a gente resolve isso, porque muitas pessoas estagiam porque precisam, porque é sobre também permanência, muitas pessoas estagiam, e aqui eu acho que é uma parcela muito mínima da São Francisco, mas também para conseguir conhecimento, muitas pessoas estagiam porque querem estagiar, já querem construir uma carreira, e o mercado de capital, pelo menos, valoriza muito isso, embora seja minoritário aqui na São Francisco, mas o que eu quero dizer não é que xingar o estágio por si só resolve, não acho que resolve, resolve adaptando a realidade da São Francisco a essa realidade de desde cedo começar nos estágios. Um outro caminho é também aumentar a oferta de bolsas, um outro caminho é aumentar as condições para fazer Iniciação Científica, por exemplo, mas as bolsas de permanência são primordiais para tratar esse assunto.
Mas também quando a gente está falando de permanência, a gente está falando de conciliar a rotina exaustiva, a gente está falando muito, obviamente, de ficar feliz nesse espaço, e ficar feliz nesse espaço muito se consegue a partir das festas que o XI de Agosto pode proporcionar. Então, um XI de Agosto que também esteja preocupado com os estudantes e com as estudantes que estão cansados e que precisam de uma diversão, é propor não só rodas de conversa, não só sarau, mas também atividades outras que prevejam atividades culturais, atividades das próprias festas, valorização das festas no Largo, como o Fica, como a Cervejada, como a Peruada, que são as nossas três festas tradicionais aqui no Largo de São Francisco, porque também é esse momento de descontração, e é esse momento que pode ser um momento de aproveitar com os amigos, quando a gente está falando de pertencimento também dentro das festas, a gente precisa ter CAO, que é a Comissão Anti-Opressão, e a gente vai até um pouco além, que é a Comissão Anti-Opressão de Gênero e de Raça, porque a gente precisa ficar atento para que o momento de lazer não vire um momento de frustração, não vire um momento em que era para ser um lazer, mas vira de tristeza.
Dentro desse tema, e veja, é uma pergunta bem parecida se envolver ao estágio, mas também que envolve essas outras questões, porque pertencimento, e eu vou me repetir, trata de todos esses temas, e a Chapa Amanhã é muito preocupada com o pertencimento, a gente precisa ocupar efetivamente essas Arcadas, e ocupar de forma feliz essas Arcadas, entendendo que a história de hoje, a história do ano que vem, que é do bicentenário, carrega muito do passado, é verdade, carrega muitas contradições, mas também carrega um futuro que pode ser pintado de povo, e só vai ser pintado de povo com essas preocupações de pertencimento.
Bicentenário da Faculdade
Entrevistador: Perfeito. Matheus, agora, você falou muito sobre isso, e eu acho que chegou um momento muito importante, que é falar sobre o bicentenário. No ano em que a faculdade de Direito completa 200 anos, o XI se depara com a escolha entre a comemoração festiva e o acerto de contas crítico com as contradições históricas da instituição. Como sua chapa pretende conduzir o efervescente calendário do bicentenário, garantindo o protagonismo dos discentes, e aqui dos discentes também se entende pelas entidades, da graduação e a valorização da memória das lutas democráticas?
Matheus Cunha: É o gancho perfeito que eu vou utilizar para falar o nosso mote para o pessoal, que é “disputar o presente e encorajar o futuro”. Esse mote responde muito bem à pergunta, mas eu vou me debruçar mais nela. A gente tem feito nas nossas redes sociais, mas também no nosso trabalho de corpo a corpo na campanha, muito essa pergunta de “qual bicentenário queremos construir?”.
E essa pergunta é importante porque, veja, estar no “queremos”, é no plural, é no coletivo, então não pode existir um bicentenário que só o XI coordene, que só o XI e as demais instâncias superiores coordenem. A gente pensa então, e a gente propõe o bicentenário, a partir da nossa proposta de AGE do bicentenário, que toda a comunidade franciscana discente, que aí inclui as extensões, as entidades e os coletivos, participe desse programa, que vai ser a SEREC do ano que vem, mas não só, que vai ser a semana do XI, do XI de Agosto, que é a data que nos leva ao nosso nome, a semana do XI, e que os demais eventos da faculdade, a gente sabe que vai ser um ano todo, e tem o relógio lá embaixo, assim que a gente entra na faculdade, dizendo quantos dias faltam para o bicentenário. O ano todo vai dizer a respeito disso.
Por que eu destaco a presença do “nós”, a presença desse sujeito no plural e coletivo? Porque é só com muitas mãos que a gente consegue pensar o bicentenário de todo mundo. A gente consegue pensar o bicentenário que as entidades querem também passar para os estudantes, e que os estudantes querem passar para si mesmos. Eu vou retomar o nosso mote, o nosso mote que eu falo de maneira muito feliz, que é disputando o presente, disputando onde? Na nossa memória. Porque esta é a casa do Zé Celso, essa é a casa do marido da Lygia Fagundes Telles, querido Goffredo, e da própria Lygia, e do Fernando Haddad, e tantas outras figuras que nos trazem muita alegria.
Mas também é uma casa que assinou o AI-5. Assinou o AI-5, e eu fico sempre muito tocado quando eu falo isso, assinou AI-5 mais forte do que os militares gostariam, tanto é que os militares tiveram que abrandar o AI-5. A redação final não foi a redação final que essa casa queria. Essa é uma casa, então, de muitas contradições. Essa é uma casa que impediu que o Luiz Gama, à época, assistisse às aulas e se matriculasse enquanto aluno. Essa é uma casa de muitas contradições. E é pautando essas contradições que a gente constrói uma memória. É pautando essas contradições que a gente constrói uma disputa sobre o que é esse espírito franciscano. Eu, Matheus Cunha, e o meu coletivo, a nossa Chapa Amanhã, acredita muito que o espírito franciscano é do Zé Celso, é da Lygia, é do Vitão, querido, sempre (saudades Peruada). Mas o espírito franciscano é pautado no rir para corrigir os costumes. Mas ele não é só isso. Ele também carrega suas contradições, e pensar o bicentenário é pensar essas contradições.
Veja, o bicentenário não é só nosso, o bicentenário é dos cursos jurídicos no Brasil todo. O Brasil todo vai, é da nossa irmã em Olinda também, no Recife, no Brasil todo vai comemorar os cursos jurídicos no Brasil, que até um pouco da nossa independência passa por isso. É contraditório até nisso, porque não é propriamente uma independência, mas só se pode falar em independência com universidade aqui, para a formação dessa elite nacional. De novo, uma contradição aí. Mas o Brasil todo vai estar voltado a esse bicentenário, a essa data que nos é tão cara.
Então, pensar as festas do bicentenário, o FICA, a Cervejada, a Peruada, é também pensar uma festa que precisa conter a grandiosidade dessa data. Não se pode pensar na grandiosidade dessa data sem CAO, sem lotes promocionais e lotes gratuitos. Não se pode, porque aí a gente deixa de lado o pertencimento. Não é o que a gente quer construir enquanto bicentenário. Então, fazendo aqui uma síntese, pensar o bicentenário é pensar de maneira conjunta, de maneira conjunta a gente já tem pensado, porque para a construção do nosso programa a gente tem conversado com as entidades também, já é uma preocupação nossa, e no ano do bicentenário vai ser ainda mais. Não só no ano, assumir da gestão já é o caso, já é o caso de planejar, porque é um bicentenário que também vai ser feito a partir de muito planejamento, mas é de forma conjunta sobre o que a comunidade quer, sobre o que os estudantes e as estudantes querem, o que os coletivos pretendem pautar nessa data tão especial, e o que a São Francisco entende quanto a esse bicentenário.
Eu ressalto, e vou repetir pela terceira vez para ficar bem marcado, disputar o presente e encorajar o futuro. Porque o bicentenário não é só uma retrospectiva do passado dos 200 anos, que, de novo, guarda muita contradição, mas guarda muita vitória. Disputar esse presente e voltar a esse passado é para a gente projetar os 200 anos para frente.
O Porão
Entrevistador: Agora passamos para as três perguntas que os candidatos não tiveram acesso previamente, mas que foi enviado uma série de eixos para que eles pudessem consultar. Eu queria falar sobre o Porão. O Porão é a sede física do Centro Acadêmico e Centro da Vida Social Universitária aqui na São Francisco, mas frequentemente divide opiniões quanto ao seu uso e sua manutenção principalmente. Como sua gestão pretende conciliar a preservação, segurança e redução de danos no Porão?
Matheus Cunha: Davi, pensar no Porão é pensar também, na existência do XI de Agosto, né? A nossa sede está lá. E primeiro de tudo, a nossa sede precisa não ser só nossa gestão, precisa ser ampliada para os demais estudantes. E eu entro num tópico interessante, que é ser mais transparente quanto aos critérios de alocação do Porão para as festas, por parte das entidades, por parte dos coletivos e das extensões. Sempre falo os três juntos para não esquecer de ninguém.
Primeiro de tudo, essa transparência quanto à alocação disso. A gente sabe que todos esses três podem pegar para si o Porão e fazer festa, então a gente pretende deixar mais exposto quais são esses critérios. Mas quando a gente está falando de Porão, a gente também está falando dos nossos funcionários do XI de Agosto, né? Dona Cida e o Silvão, pelo menos, tem mais. E o que é de projeto nosso, para o bem desses funcionários que trabalham também no Porão, é que a salinha deles, desses funcionários, seja minimamente bem mantida. Porque o que a gente tem na salinha desses funcionários hoje é um cenário que, infelizmente, é deixado para lá, é uma salinha que vira, infelizmente, mil vezes entre aspas, até por respeito aos funcionários, é uma salinha de entulho. E para o bem desses funcionários, a gente precisa preservar também esse espaço, um espaço que ninguém vê, Davi. Acaba que a gente enfoca mais no totó, na sinuca, a gente foca mais nisso, mas também tem a salinha dos funcionários, e fazer o bom uso desse espaço da salinha do funcionário, reformando-a, é também garantir salubridade para esses funcionários.
A gente tem aí na questão do FIXI, de novo, que ele acaba sendo comprometido por muitas dívidas trabalhistas, dívidas trabalhistas, inclusive, recentemente, que têm a ver com insalubridade. Garantir a preservação desse espaço é garantir também salubridade. Mas agora o espaço que todo mundo vê, que é o Porão ali, a gente precisa fazer manutenções periódicas. Então a gente tem, então, o micro-ondas, que constantemente nos grupos recebe reclamação, a gente tem a limpeza do espaço, precisa ser mais mantida, a gente tem o banheiro, que não se sabe a respeito de por que um sempre fica trancado e não é utilizado. Manter esse espaço bem limpo, de boa manutenção, é fundamental para a gente estabelecer um bom convívio franciscano.
Autonomia e Partidarização
Entrevistador: Agora eu queria falar sobre autonomia do movimento estudantil e partidarização. Historicamente, o XI de Agosto equilibra sua atuação entre pautas corporativas internas e grandes embates da política nacional, principalmente vide as eleições de 2026, que foram eleições extremamente polarizadas. Qual deve ser a margem de atuação do XI de Agosto na política externa e na relação com partidos políticos e governos, garantindo que a entidade mantenha sua independência e legitimidade para criticar retrocessos, independentemente de quem esteja no poder?
Matheus Cunha: De novo, a São Francisco se pauta através de autonomia. Não coincidentemente, esse espaço das Arcadas sempre teve o campo político autonomista, que se reivindicava com esse nome autonomista, que hoje a gente popularmente chama mais de independentes.
Eu, particularmente, e a minha chapa também, entende que é muito prejudicial o aparelhamento por parte dos partidos políticos no movimento estudantil. Claro que na democracia partidária o partido político é fundamental, não se está negando a importância dele. Só se faz presidente, só se faz deputado com partido político. Mas o movimento estudantil deve seguir uma outra lógica. Deve-se pautar primeiro no que a gente quer aqui dentro, na compatibilização desses interesses aqui dentro, para ai se pautar lá fora. Então, enquanto chapa independente, o Amanhã é uma chapa independente politicamente, é de esquerda, mas é independente no sentido de que não é partidária, ela é, então, apartidária, uma chapa que, bom, a gente passou agora o medo do governo do Flávio, felizmente. Está lá nos Estados Unidos, fugiu, é um fujão, é um covarde.
E passado esse medo, a gente tem um governo Lula, um governo Lula 4, que muito provavelmente vai ser um governo de maior frente ampla. O discurso que a gente teve nas eleições, inclusive, era um discurso de muita frente ampla. Era um discurso de esquerda e direita contra o bolsonarismo. O governo vai precisar ter dentro de si o que foram essas eleições. Então, muito provavelmente, o governo vai tomar decisões que dizem respeito a isso, esquerda e direita contra esse projeto nacional, esse desprojeto nacional que era o bolsonarismo. Então, é importante, é fundamental que a gente, claro, defenda um governo que é democrático, que sofreu muito para conseguir vencer essas eleições e que defenda o povo, mas que a gente use a nossa independência, a nossa autonomia para cobrar.
Então, quando o governo, e o governo Lula já tentou fazer isso, agora no Lula 3, fale em explorar, esse é só um exemplo, explorar petróleo na foz Amazônia, a gente se mantenha enquanto gestão independente e apartidária, apesar de apoiar o governo Lula, a gente se mantenha crítico a essa realidade, porque a questão do petróleo precisa ser estudada, compatibilizada aos interesses dos povos originários, a gente está numa campanha, inclusive, de defesa dos povos originários.
E mais, a gente está falando também de um governo, passada a questão do petróleo, e um governo que vai indicar, muito provavelmente, pelo menos quatro ministros no Supremo. Fala-se em três, porque o Gilmar Mendes deve aposentar só em 2030, e aí abre a possibilidade de se ele vai aposentar no ano eleitoral, enfim. Então, pelo menos três, o governo Lula vai indicar. É preciso que o XI de Agosto paute uma campanha por uma ministra negra no Supremo Tribunal Federal, porque de mulher a gente só tem a Carmen Lúcia hoje, e de mulher negra a gente nunca teve na história. É importante, então, que o XI de Agosto, respondendo mais diretamente sua pergunta, mas também focado nisso que eu disse da ministra negra no Supremo, o XI de Agosto se mantenha crítico às indicações do presidente da República, e mais do que se manter crítico, porque criticar por criticar não resolve, a gente precisa ser propositivo. Se proponha enquanto sugerindo qual que é essa indicação ao Supremo.
É uma competência do presidente da República, o Senado aprova ou não, como foi o caso do Messias, mas é uma competência do presidente da República que deve ser analisada e observada e criticada pela sociedade civil organizada e pelo movimento estudantil. Porque acaba sendo contraditório que o movimento estudantil, na hora de eleger Lula, possa estar nas ruas, possa se mobilizar de forma muito engajada, mas na hora de querer uma ministra negra no Supremo, não consiga. Na hora de criticar a exploração muito intensa do petróleo na foz Amazônia, como é o interesse, não consiga criticar.
Então, é uma gestão que eu me proponho e o meu coletivo, a minha coletividade se propõe a ser, sim, base, mas uma base de apoio que seja minimamente crítica, pelo menos. Porque a gente precisa estar atento e forte. É um governo que vai ser difícil, porque não depende só do governo, depende de um congresso, e a gente tem um congresso, Câmara e Senado, muito retrocesso. Então, a gente precisa, inclusive, manter essa independência para poder criticar a atuação dos parlamentares, para poder criticar o que de maneira muito frequente é esses acordões nacionais.
A independência vem aqui, o apartidarismo vem aqui, não como sinônimo de neutralidade, não é nada disso, até porque eu estou falando de apoio ao Lula, porque vai ser um governo difícil, mas que se mantenha aqui como coerente para se poder cobrar, para se poder pressionar pelas pautas populares e pelas pautas jurídicas que nos importam enquanto franciscanos.
A Greve de 2026
Entrevistador: Por último, eu acho que é uma das perguntas mais importantes que muitos franciscanos querem saber: greve, a greve de 2026. A conjuntura universitária recente foi marcada por fortes movimentos de paralisação e também negociação com a reitoria e o DCE. Qual é a avaliação da sua chapa sobre os efeitos da paralisação de 2026 e como o XI deve atuar na construção da unidade estudantil e na disputa do Conselho de Centros Acadêmicos, o CCA?
Matheus Cunha: Infelizmente. Vou começar por último. Sobre o CCA, o Conselho de Centros Acadêmicos. A gente perdeu muito espaço nesse lugar que é de disputa, porque a gente deve disputar o presente, encorajando o futuro. Mas a gente perdeu muito espaço e a gente se tornou um centro acadêmico muito diminuto. Não porque somos um centro acadêmico pequeno, pelo contrário, a UNE surgiu aqui, a luta pelo “o petróleo é nosso”, surgiu aqui. Nós somos trincheira no movimento estudantil.
Inclusive ano que vem o bicentenário, acho que muitos não sabem disso, mas fica aqui como também esse espaço de democratização, o bicentenário também é uma data de 125 anos do centro acadêmico. O maior centro acadêmico do país, mais antigo, mas é uma data também de redondinho, de comemorar esses 125 anos. Mas voltando, perdemos muito espaço, apesar da nossa história que é uma história de muita luta, muito por conta do partidarismo mesmo.
E a greve, dentro da São Francisco, pelo menos, ela foi uma greve que foi, aqui é uma análise da gestão Candeia: ela foi convocada e aprovada muito pautada no que seria muito feio não aprová-la, por parte de uma gestão petista mesmo, dessa vertente do PT. O PT tem muitas vertentes, é um partido muito democrata nesse sentido. Mas foi uma greve que, naquele primeiro momento, foi uma greve aprovada por pressão. Tanto é que a gente tem aquela questão tenebrosa dos prints que vieram a público, e tanto é que o centro acadêmico, à época, só lançou um posicionamento favorável à greve depois que os prints vieram a público. Não era, portanto, uma vontade da gestão fazer greve.
Mas eu ressalto que greve não deve ser uma vontade da gestão, deve ser uma vontade dos estudantes. E mais ainda, eu me posicionei desse lado na greve de 26, estive lá enquanto comandante, como eu já falei na entrevista. A greve, ela deve ser também pautada por análise de conjuntura, infelizmente faltou muita análise política nessa greve, deve ser pautada dessa forma. A greve deve ser pautada em pedir mais para ganhar o que a gente quer.
Então, a mídia, por exemplo, falou tipo: “Ai, pedir um salário mínimo”, mas a gente pediu um salário mínimo para conseguir um aumento, que não ia ser um salário mínimo, mas um aumento que importa na vida de quem recebe esse aumento, quem recebe PAPFE, PUB, PEG, etc. Então, a greve, ela precisa ter uma análise de conjuntura muito bem definida, e bem definida a parte de seriedade, e bem definida a parte de acolhimento dessas demandas estudantis.
Por isso que a nossa gestão se pauta na escuta dos estudantes e das estudantes, se pauta nesse apartidarismo, nessa independência, porque querendo a nossa gestão aprovar uma greve porque os estudantes querem, a gente não vai ter nenhum partido que chegue e fale: “Não, a gente tem a eleição do Lula, por exemplo, agora, a gente não vai conseguir fazer a greve”. E assim, Davi, acho muito importante destacar isso. Eu acredito muito numa campanha propositiva, num debate propositivo. Isso que eu estou fazendo não é um ataque pessoal a nenhum dos integrantes da gestão Candeia, e aí uma continuidade na Chapa Reconvexo. Não é. Não acredito num debate de ataque. Mas as contradições precisam ser expostas.
E eu me lembro que teve uma reunião no comando de greve que muitos da gestão Candeia chegaram e falaram: “A gente precisa acabar com a greve”, não nesses termos, “a gente precisa finalizar a greve porque a gente já conseguiu alguma coisa, porque a gente tem a campanha do Lula”. E veja, passaram-se alguns meses depois e é a mesma gestão que não conseguiu fazer uma campanha efetivamente para o Lula no primeiro turno. E precisou, perdão a expressão, mas a água bater na bunda para a gente conseguir eleger o Lula no segundo turno, com muita angústia, com muita apreensão.
Então, eu estou falando tudo isso para destacar a importância do apartidarismo e a importância do setor autônomo na universidade, para a gente conseguir se gerir, para que a gente não tenha um partido, eu não estou falando só do PT não, tem outros partidos aí que circulam a nossa história e que nos impõem as coisas. Um partido que vai impor só os próprios interesses e vai desconsiderar o do franciscano. Se o interesse do franciscano, da franciscana, tiver compatível com os interesses do partido, vambora. Mas é preciso manter uma postura crítica quanto a isso e, infelizmente, na greve de 26, essa postura não foi tão crítica quanto precisava e se escolheu mais deixar os estudantes de lado, as estudantes de lado, para defender os interesses partidários.
Agora, quanto ao diálogo com as demais forças na faculdade, os nossos órgãos superiores, como seria a diretoria aqui ou a reitoria, é preciso se manter muito independente até para isso, para que a gente consiga falar forte com essas pessoas, que a gente consiga impor o interesse dos estudantes. Eu estou usando “forte” e “impor”, mas com muita base no respeito na educação, porque eu de fato não acredito em política que seja de ataque, mas uma política de defesa, uma política que, por conta da autonomia, da independência e do apartidarismo, a gente consegue se pautar seriamente.
Considerações Finais
Entrevistador: Agora, por último, eu queria suas últimas considerações finais, então duas frases aí que você gostaria de deixar para o final da entrevista para definir a Chapa Amanhã.
Matheus Cunha: Eu vou retomar o que eu falei sobre os motes, quarta vez que eu estou dizendo aqui, que é disputar o presente para encorajar o futuro.
O Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, que é um dos livros da minha vida, tem a frase de que “o correr da vida embrulha tudo, a vida morde, assopra, esquenta e depois esfria”, mas é a última frase que me importa aqui: “O que a vida quer da gente é coragem”. O que a São Francisco deseja e merece da gente é coragem. Então, a Chapa Amanhã vem aqui com esse nome que eu acho que aspira futuro, deseja futuro, quer futuro e quer construir esse futuro. Um amanhã que não é daqui dois dias, não é daqui três dias. É daqui um ano, dois, dez, duzentos, para pensar esse outro bicentenário. E um amanhã que essa, inclusive, é uma preocupação da chapa, um amanhã que tenha paridade de raça, de gênero, um amanhã que seja um amanhã popular.
A Universidade e a São Francisco. A política de cotas na São Francisco é muito recente. Eu venho de um lugar, o Coluni, que a política de cotas é ainda mais recente, 2021. A política de cotas lá no Coluni, que a gente conseguiu, eu era RD à época, foi a proposta que eu defendi, que conseguiu ser implementada, felizmente. É muito recente ainda, mas que já se pintou de outra forma. A gente consegue ver que a São Francisco mudou de cara e pode mudar ainda mais. O Amanhã é pensado nisso. A partir de paridade de raça, como eu falei, de gênero, a partir das diferenças também de classe, a partir das muitas sexualidades, muitas orientações, muitas denominações de gênero. É esse amanhã coletivo, bonito, e é por isso que a nossa camisa é mais colorida, é esse amanhã que tem as cores do amanhecer, que é logo ali naquelas primeiras horas da manhã, que a gente quer.
A gente, enquanto chapa, quer pautar um debate que seja de esperança. Um debate que se reivindique enquanto novo, mas também não seja esse novo só por dizer. A gente tem no campo de direita hoje, nacional, partidos como Novo, Missão, Avante, Para Frente, óbvio que ninguém vai falar que é Para Trás. Essas palavras por si só são vazias. O nosso desafio no amanhã, enquanto esquerda, é trazer palavras que não sejam só um sorteio, mas que signifique algo. Significa a preocupação com a permanência, significa a preocupação com uma política séria e reivindicatória, significa uma preocupação com o bicentenário que seja crítico, mas também que conheça a nossa história, porque o que eu percebo na São Francisco é que a nossa história não nos é contada. E se a gente não fizer, por exemplo, um tour que conte a nossa história, conte a história desse prédio, não tem como criticar, não tem como criticar aquilo que você não sabe. Expor a nossa história é importante para a crítica, é importante para saber o que a gente quer ser, o que a gente não quer ser, e o amanhã vem como esse movimento de renovação, de proposição, de autonomia e independência que faz sentido para a São Francisco e que quer disputar o presente e encorajar o futuro.
É o nosso grande mote, é o que nos diz respeito. Como eu disse, eu encabeço a chapa, mas não é só a minha história que importa, são a história de todas as pessoas que estatutariamente são dez, mas a gente tem mais pessoas que constroem coletivamente e constroem no cotidiano. Essa construção cotidiana e no dia a dia da faculdade que a gente acredita. Não adianta ficar só preso na salinha do XI. Uma salinha do XI que tem que ficar aberta para os demais estudantes. Não adianta ficar só sendo o centro acadêmico. A gente precisa, enquanto membros, ocupar as entidades, ocupar as extensões, estar nos coletivos, estar nas ruas.
Essa eleição nos mostrou a importância de estar nas ruas. Então, a gente acredita no amanhã da São Francisco que ocupe a São Francisco e permaneça na São Francisco. E, a partir da construção aqui da São Francisco, dos interesses, das reivindicações nossas, pautar o debate local aqui na cidade de São Paulo, que veja, eu sou mineiro, então a cidade de São Paulo me causa um certo espanto. Eu venho de uma cidade de 40 mil habitantes, então para mim isso aqui nem é local, aqui é quase um estado. Mas que se paute nos interesses da São Francisco para pautar o debate local, o debate estadual, o debate local que a gente, inclusive, tem que fazer uma oposição ao governo do Ricardo Nunes, o debate estadual que a gente precisa fazer uma oposição ao governo entreguista do Tarcísio, e o debate nacional de apoio, um apoio crítico ao governo Lula, e também pressionando para que as nossas demandas sejam escutadas. Uma demanda de esquerda, uma demanda popular, e demandas aqui da São Francisco que faz sentido para os franciscanos.
Aqui na São Francisco, por último, a gente tem muito essa preocupação de deixar a casa bem arrumada. O XI de Agosto não é brincadeira. O XI de Agosto não é joguinho digital para ser feito por aí. A gente precisa levar com seriedade. E deixar a casa aqui arrumada é também uma forma de a gente conseguir mobilizar para pautar local, estadual e nacionalmente as nossas disputas. Obrigado, Davi, pela oportunidade.
Entrevistador: Eu que agradeço, Matheus. Muito obrigado por aceitar a entrevista e fica aqui encerrada a primeira entrevista da Academia de Letras para a eleição do XI de Agosto da Chapa Amanhã.