No dia 29/10/2026, a Academia de Letras da Faculdade de Direito de São Paulo sabatinou os três presidenciáveis ao Centro Acadêmico XI de Agosto. As entrevistas estão completas no site, no Instagram e também no Youtube (sim, em vídeo!). Esta é a entrevista com Samuel Marins, candidato a presidente do XI pela Chapa Ubuntu
Apresentação e Trajetória
Entrevistador: Estamos aqui na entrevista da Chapa Ubuntu às eleições do XI de Agosto, estou com o candidato à presidência Samuel. Samuel, muito bem-vindo, seja muito bem-vindo, muito obrigado pela sua presença e muito obrigado por aceitar nosso convite.
Samuel Marins: Eu que agradeço pelo convite. É muito bom ter um espaço para poder falar, não só das nossas propostas, mas que também os estudantes possam conhecer um pouco mais da chapa e da intenção que a gente tá trazendo junto com a nossa proposta.
Entrevistador: Então, já para começar aqui a nossa entrevista. Samuel, eu queria saber a sua trajetória política, a sua trajetória na universidade, como que você ingressou no movimento estudantil e também eu queria saber como que a Ubuntu foi formada, por que esse nome e como que a chapa em si foi formada.
Samuel Marins: Acho que falar um pouco da trajetória política levaria muito tempo. Então vou tentar resumir. Eu vim do interior do Rio de Janeiro. Então essa é a minha segunda graduação, eu sou aluno de escola pública, eu fui aluno de escola pública a vida inteira, então eu conheço as dificuldades do ensino básico. E mesmo com as dificuldades e graças aos ótimos professores que eu tive durante o meu ensino médio e o meu fundamental, eu consegui acessar o ensino superior. E aí, para ir para a faculdade, eu pegava 3 horas e meia de ônibus.
Então, acho que o movimento político ele começa aí. Porque o meu corpo, ele nunca foi isento da política. Estar dentro de um ônibus para poder ter acesso ao ensino superior durante um período tão grande, ler todo o material da aula durante o trajeto, isso tudo é político. Acho que essa é a parte mais importante. E acho que o meu acesso à política estudantil, ao movimento estudantil, vem muito disso, de uma necessidade. E aí não de: “Ah, eu acordei um belo dia, li um livro maravilhoso e falei: ‘Nossa, preciso mudar o mundo!’”. É tipo: “Eu preciso mudar o mundo que eu tô, porque isso me afeta diretamente.”
Acho que a minha entrada no movimento estudantil vem muito dessa realidade, de onde eu vim. Hoje, graças a Deus, eu moro perto da faculdade, então já é muito mais fácil chegar na faculdade, foi difícil para entrar aqui, mas permanecer, apesar de todas as dificuldades que a SanFran apresenta, a questão de acessibilidade tem sido muito mais tranquila, graças a políticas de acesso, porque tudo isso influencia.
Só a outra parte da pergunta que eu acabei esquecendo, que é o porquê da chapa, o porquê do nome. Ubuntu é uma filosofia bantu, que significa: “Eu sou porque nós somos”. E aí, pensando nesse coletivo, também, da própria história, não só a minha, mas de todo mundo que pertence à chapa, é muito isso, porque, se hoje eu tô dentro da SanFran é porque eu tive ótimos professores. Eu tive professores que me seguraram na mão e falaram: “Vamos embora”. Então, eu sou porque nós somos. Eu sou porque alguém acreditou, segurou na minha mão e fez com que o meu caminho se tornasse possível. E isso a gente vê muito dentro da nossa chapa. Tanto que, hoje, a gente acabou de lançar um joguinho. E é justamente esse o ponto, porque eu tenho muito orgulho das pessoas que estão compondo a chapa comigo, porque a gente acabou de lançar um jogo, a gente lançou um site, a gente virou noites juntos pra poder escrever a nossa carta-proposta.
E é uma carta-proposta que eu tenho muito orgulho, porque tá muito completa. Só que isso foi feito em coletivo. “Eu sou porque nós somos”. Eu sou porque um grupo de pessoas acreditou e fez isso acontecer de fato. E acho que um ponto importante também é o nosso animal símbolo, que é uma Sankofa. E a Sankofa, tá com a cabeça pra trás. Se você olhar o logo da nossa chapa, ela tá com a cabeça pra trás para olhar o que acontece… o que aconteceu nesse passado. E é olhar tanto pro nosso passado enquanto chapa, enquanto pessoas, é olhar pro passado dessa faculdade, o que a gente passou nos nossos primeiros anos aqui dentro. E o que a SanFran representa no passado desse país que a gente pertence, já que a SanFran é a universidade que formou diversos ministros, diversos presidentes.
Então, a SanFran também é responsável pelo sistema de sociedade que a gente tá hoje. Então é importante olhar pra esse passado pra ver se a gente tá satisfeito com o presente que resultou disso. E olhar pra frente, pra construir um futuro que faça sentido. E aí, não fazer sentido somente para uma parcela da SanFran, mas que faça sentido num todo. Tanto para aquele aluno que vem de uma escola de excelência quanto pro aluno que vem de uma escola pública. Porque ambos lutaram muito pra conseguir chegar nesse espaço. Então, é justo que ambos aproveitem da mesma forma.
Gestão Financeira e Fundo do XI
Entrevistador: Perfeito, muito obrigado. Agora eu queria falar sobre gestão financeira e Fundo do XI. O Centro Acadêmico vem enfrentando déficits operacionais recorrentes nas contas mensais e resgates contínuos do fundo de investimento do XI, famoso Fundo do XI, para fechar o caixa. Qual é o plano concreto da sua gestão para estancar o rombo financeiro e qual limite será adotado para o uso do fundo patrimonial, sem comprometer os repasses obrigatórios às entidades?
Samuel Marins: Eu acho que o principal motivo, tanto de montar uma chapa, quanto de querer construir isso tudo, é entender a importância do repasse. E aí, a nossa política financeira, ela gira em torno do repasse, porque o que a gente tem de fundo hoje… pelo menos, o que eu tenho escutado nos últimos dois, três anos é: o Fundo do XI, ele vai acabar. E ele vai acabar em 3 a 5 anos, no máximo. Só que… acho que as pessoas não têm dimensão do que significa o Fundo do XI acabar. Porque se não tem Fundo do XI, não tem repasse. Se não tem repasse, boa parte das coisas que estão sendo desenvolvidas aqui dentro vão cessar.
E aí, eu digo também de política estudantil, de permanência. Então, pra nossa gestão é importante pensar no Fundo do XI e pensar em coisas práticas pra manter o fundo vivo porque isso mantém aquilo que é a base da nossa carta-programa, que é a vivência dos estudantes aqui dentro. E pensar, justamente, em cortes. Tem coisas que são pequenos detalhes que fazem uma diferença muito grande. Por exemplo, taxa de transferência bancária. É uma coisa que na minha conta de pessoa física, eu já fui no banco e falei: “ó, tira tudo”. Mas, aparentemente, na conta do XI ainda tem esse tipo de taxa. E pode parecer que é tipo assim: “ah, é um valor irrisório agora”. Só que, quando você vai juntando isso no final do ano, você poderia fazer um repasse pra uma entidade. É o repasse de um mês que poderia ter sido enviado e foi pra mão do banco. E eu acho que o banco não precisa de mais dinheiro. Você pode até precisar, mas não do Fundo do XI, né? Porque tem outras prioridades. Além disso, tem o fato de que hoje, as nossas festas, na sua grande maioria, dão muito mais prejuízo do que lucro. E aí, pensar em trazer essa ideia de que tipo assim: “ah, cortar gastos de festa, a festa vai ficar ruim”. Gente, não é, obviamente, que o dinheiro vai favorecer que a festa seja muito boa, mas a organização, a forma como ela tá sendo conduzida, a forma como ela é pensada, é muito mais importante.
Então, é possível ser, não digo nem fazer um corte, mas ser prudente na hora de gastar, na hora de investir na festa, e ainda assim produzir uma festa boa. Por exemplo, uma das coisas que a gente tem estudado, já tem pensado, tem feito bastante pesquisa em volta, sobre participar de editais de fomento cultural e tudo mais pra poder trazer dinheiro, para bancar essas festas. Por exemplo, a Peruada. A Peruada é um evento super tradicional que acontece há anos, todo mundo sabe que na terceira semana de outubro o centro de São Paulo para pra acontecer a Peruada. E por que que não tem investimento nisso? Por que que sempre tem que ser um gasto tão absurdo que sai do Fundo do XI e que esse dinheiro não volta?
Porque, ultimamente, tem estado cada vez mais esvaziado. Então é um outro ponto, também, que preocupa a nossa chapa. É procurar parceria, participar de editais para poder trazer esse dinheiro de volta, e o dinheiro que tá surgindo, que seja lucro e não prejuízo. É interessante, talvez, fazer uma campanha de arrecadação para o Fundo do XI para que possa, pelo menos, voltar a respirar outra vez, estudar. E aí, não é nenhuma proposta impensada de: “ai, vamos fazer, vamos tirar o que tá lá e jogar num investimento muito melhor”. Porque não é assim que as coisas funcionam. Precisa ter o pé no chão, precisa ter consciência do que está sendo feito.
Então, beleza, a gente tem um rendimento que hoje não rende mais, que dá mais prejuízo do que lucro. Vamos estudar como que isso é feito, vamos pensar, de fato, como isso é feito. Porque não adianta eu chegar aqui e falar pra vocês: “eu vou mudar, quando terminar a gestão, a gente vai ganhar… vai estar com 15 milhões de novo”. Não é assim que as coisas funcionam. Se eu não sei de onde eu estou partindo, muito provavelmente eu não vou saber aonde eu quero chegar. Então, acho que nessa parte financeira, a nossa proposta de chapa é ser muito mais conservadores nesse ponto.
E aí acho que uma coisa muito importante é dizer quem são os nossos tesoureiros. Tanto o Paulo Kaique quanto o Paulo Henrique são duas pessoas que foram escolhidas a dedo, a nossa chapa foi pensada no sentido de: a gente tá botando a mão no fogo junto. O que acontecer, vai acontecer pra todo mundo. Então a gente tem que ser muito responsável, não existe margem pra erro. Então, tem o PK, que é quem tá produzindo toda a parte do site, toda essa parte mais tecnológica, o jogo… então, são pessoas muito competentes. A arte, que ficou linda, foi o Paulo… no caso, o Paulo Henrique, que produziu. São pessoas que têm, não só essa sagacidade, mas têm uma vivência, têm experiência em gestão de outras entidades também, com um perfil, com uma escala bem menor, mas de tanta eficiência e importância quanto o XI.
Isso é uma coisa que eu fico muito tranquilo, porque eu confio 100% nos meus tesoureiros. E aí, quando eu fui convidar pra fazer parte da chapa, uma das coisas que eu falei foi: “Eu tô convidando vocês, porque se um dia qualquer coisa acontecer e eu precisar de um advogado, é vocês que eu vou botar pra tomar conta da minha vida. Então, vocês são as pessoas que eu confio pra tocar esse barco junto comigo.” É uma preocupação da chapa.
Permanência Estudantil e Moradia
Entrevistador: Perfeito. Agora falando sobre permanência estudantil e moradia. Diante da insuficiência do auxílio financeiro e dos desafios estruturais enfrentados pelos estudantes em situação de vulnerabilidade, como o XI de Agosto atuará de forma prática junto à reitoria e a diretoria para viabilizar a ampliação de programas sociais de pertencimento, o suporte de assistência social presencial e a captação de recursos para o aprimoramento da política de moradia estudantil, principalmente a Casa do Estudante, mas também o CRUSP?
Samuel Marins: Acho que quando a maioria das pessoas vão falar sobre essas propostas, cria-se um imaginário que é tipo assim: “Eu tenho que revolucionar o mundo, eu tenho que fazer muita coisa. Eu tenho que ir lá na Casa do Estudante e emboçar a parede. Eu tenho que ir no CRUSP e capinar a grama em volta”. Não são coisas tão absurdas. As pessoas não conhecem a realidade de quem tá lá dentro, nem a realidade de como as pessoas chegam. É uma coisa simples e que pode ser resolvida de uma forma muito mais tranquila que vai trazer um impacto absurdo pra vida dos estudantes que tão chegando, por exemplo, quando um estudante, ele chega nesse tipo de moradia, na Casa do Estudante, ele não chega com nada. Geralmente, são pessoas que tão vindo de outros estados, pessoas de 17, 18 anos que tão chegando num estado completamente diferente, longe dos pais, longe de rede de apoio, longe de tudo. E essas pessoas não tem um colchão pra dormir. E mesmo aqueles que vêm com uma estrutura, da família, com um mínimo de suporte, porque as pessoas que vão morar nesse tipo de moradia são pessoas que não têm o recurso financeiro para custear uma moradia em São Paulo. Então, toda essa parte de acesso é muito mais complicada. E um colchão que chega, e para isso pode ser feito com uma parceria com os professores, de conversar com os professores, tipo assim: “ó, tá chegando 10 alunos na Casa do Estudante, tá chegando 15 alunos no CRUSP, que que a gente consegue dar de suporte pra esse aluno? Que que um professor pode doar? Que que a Associação de Antigos Alunos pode doar?”. O aluno que tá chegando não sabe onde ele tá chegando. Ele tá num estado novo, tá com pessoas completamente diferentes.
Então, é importante que o XI faça a ponte do tipo: “ó, eu consigo te fornecer acesso a um colchão. Eu consigo te oferecer acesso a coisas básicas”. E dar oportunidade, por exemplo, um aluno chegou, ele não sabe onde procurar estágio, ele não tem a quem recorrer, “ó, o centro acadêmico tem aqui uma base de currículos, que vai mandar, por exemplo, pra um TJ, vai conversar com o TJ”. Porque parece que é muito fácil, “ah, o aluno chegou, ele é da SanFran, ele vai conseguir um estágio muito rápido”, só que é muito rápido quando você tem conhecimento, quando você tem pessoas a quem recorrer. Esse aluno que chega sozinho não sabe a quem pedir ajuda. Então… essa questão de política estudantil é muito mais sobre criar uma rede de apoio, é ter alguém a quem esse aluno possa pedir socorro, a quem ele possa pedir uma orientação, a quem ele possa pedir uma ajuda, é saber coisas simples do dia a dia. Qual posto de saúde ele pode ir para tomar uma vacina. Para qual posto de saúde ele pode ir… para qual UBS ele pode ir quando ele tá começando a se sentir mal. São detalhes, que quando se pensa muito: “Ah, eu vou vir aqui, eu vou reformar a Casa do Estudante, vou fazer uma política de arrecadação, vou conseguir 3 milhões pra terminar a reforma e botar o prédio zero bala”. É muito legal, é ótimo se fizer. Vai ser… vai mudar a vida de forma estrondosa das pessoas que estão lá dentro. E isso daí eu digo com certeza, e se for possível, é óbvio que vai ser uma prioridade da gestão, fazer uma campanha de arrecadação. Só que não adianta eu querer fazer o muito se eu não tô fazendo o mínimo. E eu acho que é aí onde as pessoas estão pecando. Onde as últimas gestões têm pecado. É que tão querendo fazer muita coisa e, às vezes, é o básico: dar um pouco de suporte pra que essa pessoa consiga caminhar, consiga fazer outras coisas.
Saúde Mental, Acessibilidade e Inclusão
Entrevistador: Perfeito. Agora partindo para saúde mental. O acolhimento psicológico e as condições materiais de permanência para estudantes neurodivergentes e PCDs ainda sofrem com gargalos burocráticos e institucionais. Quais mecanismos permanentes e protocolos de acolhimento o XI de Agosto implementará para garantir acessibilidade sensorial, pedagógica e acompanhamento contínuo?
Samuel Marins: Eu acho que o primeiro ponto é escutar o aluno. Porque uma coisa que acontece muito na SanFran é: eu vou falar, eu vou resolver o seu problema, mas eu não consulto você. Então, quem quer resolver a situação do PAPFE, geralmente não recebe PAPFE. Não adianta uma pessoa que não tem deficiência querer tomar o protagonismo. E aí, eu não tô falando que é tirar o corpo fora da jogada. Mas, beleza, eu tenho a institucionalidade, eu tenho possibilidade de resolver, então eu vou sentar com o aluno com deficiência, eu vou conversar com essa pessoa.
E isso foi uma preocupação dentro da chapa. A gente tem como apoiadora extrastatutária uma pessoa com deficiência, que é quem tem ajudado a pensar esse tipo de política. Porque não adianta eu botar uma sala pro aluno se reorganizar, uma sala sensorial, com nome bonito, só que esse aluno não tem a chave. Não adianta eu jogar pro professor e falar: “ó, temos um aluno com deficiência aqui, e você tem que aplicar a prova para ele de uma forma diferente”. “Tá, que forma diferente é essa?”. Eu preciso entender e esse professor precisa conhecer esse aluno, precisa saber qual é a especificidade desse aluno. “Tá, botar um aluno, talvez vamos… vamos dizer, com autismo, pra fazer uma prova numa sala hiperlotada, em dia de prova, tá todo mundo extremamente apreensivo, é um entra e sai da sala toda hora. Será que isso vai fazer bem pra esse aluno? Será que esse aluno conseguir se concentrar durante a prova?”. E é necessário pensar que vai ter aluno com autismo que vai conseguir, mas vai ter outro que não.
Então, como que eu vou vencer essa barreira? Porque o erro não é dele, ele não tá errado, é um direito dele estar ali dentro, é um direito dele estudar, é um direito dele fazer a prova. Então, cabe à universidade, cabe ao Centro Acadêmico lutar para que o direito desse aluno seja respeitado, para que ele tenha acesso a essa prova, que ele tenha acesso ao conhecimento… para que ele tenha ferramentas pra lutar pelo direito também de outras pessoas, que enfrentam as mesmas barreiras, as mesmas dificuldades. Então, acho que o principal ponto é sentar e ouvir os alunos.
E aí, depois que eu conseguir ouvir… ir atrás dos professores. E é cobrando a faculdade, tipo: “ó, a faculdade tem 200 anos, beleza. O que que a gente tem de conhecimento que tá sendo produzido pra tratar a causa das pessoas com deficiência? A gente tem uma disciplina que trabalha sobre isso? O que que a gente tem de acessibilidade? Cadê as rampas dessa faculdade? Cadê o piso tátil? Ah, o piso tátil tá soltando, então vamos resolver isso, vamos botar rampa”. São coisas pequenas, que poderiam ser resolvidas, e que vão ajudar a vida de muita gente.
Porque você pensa: “ah, temos aqui um aluno cadeirante, e aí, vai botar uma rampa pra esse aluno que é cadeirante”. Só que a gente também tem aqui a Associação dos Antigos Alunos. Quando você vem, por exemplo, num sarau, quando você vem vivenciar o espaço da faculdade fora do ambiente de sala de aula, você vai ver esses antigos alunos andando pela faculdade. E é importante para um idoso, por exemplo, que tenha uma rampa. Isso também é acessibilidade, a acessibilidade que é pensada pra um aluno com deficiência, ela também facilita a vida de muitas outras pessoas.
Então, acho que é muito importante pensar que política de acessibilidade não é só pra um grupo específico. Vai afetar a vida de todo mundo, vai facilitar a vida de muita gente dentro da universidade. E, pelo menos, o que tenho tido de experiência e ouvido de relatos é de algo que ainda tem sido negligenciado, não vou prometer que vamos resolver tudo, mas eu prometo que a gente entrando, a gente vai tentar brigar o máximo. Esse é o ponto, a gente quer ouvir e brigar pelos alunos, porque esse é o papel do centro acadêmico: é tornar o ambiente universitário mais acessível, mais prazeroso, mais agradável e menos caótico possível para o estudante, embora a SanFran seja bem caótica, é algo bem complexo de se pensar. Mas quando se tem alguém pelo menos preocupado em tornar esse ambiente minimamente mais acessível, já é um grande avanço.
AEX e Ensino Jurídico
Entrevistador: Agora falando sobre AEX. Em 2027, a curricularização da extensão, o famoso AEX, passa a cobrir 100% das turmas da graduação, ao mesmo tempo em que persiste a disparidade histórica de oferta de optativas entre os turnos matutino e noturno. Como o XI atuará na Comissão de Graduação para garantir a paridade entre os turnos e desburocratizar as AEX, sem retirar as autonomias das extensões e das entidades?
Samuel Marins: É justamente esse o ponto. É a principal proposta da nossa chapa. Não cabe ao XI brigar com as entidades e tentar talvez tirar a autonomia. É fortalecer as entidades para que o aluno, ele possa receber a sua AEX, e aí eu digo isso num lugar bem sensível que é: eu sou 196, então, toda essa transição afeta muito todo o meu processo de formação, porque agora que eu tô no quarto ano, é uma dor de cabeça para poder pensar: “meu Deus, o que que eu preciso?” e é o papel do Centro Acadêmico, em parceria com a RD, justamente pensar: “ó, esse… esse monte de sigla, que em 90% das vezes não faz o menor sentido para o aluno que tá chegando agora, vamos didatizar esse conteúdo? Vamos explicar aqui como que você vai fazer para conseguir cada coisa?”. E pensar justamente nessa disparidade de disciplinas. Eu sou aluno do noturno, eu sei o quão terrível é você ficar 2 horas na frente do Moodle, do Júpiter, para conseguir escolher uma matéria que encaixe no horário, que faça sentido para o que eu quero de formação e que seja ofertada num horário minimamente decente.
Então, porque a maioria das disciplinas são no matutino. E aí às vezes eu olho uma matéria que eu falo bem assim: “Nossa, que matéria incrível! Só que é do matutino, eu não posso fazer porque eu tô fazendo outras coisas, eu tô ocupado”. Porque é importante pensar que o estudante tem uma vida além da faculdade. E pensar que temos uma vida além da faculdade é pensar também que precisamos criar estratégias para que a vida aqui dentro seja um pouco mais fácil. E eu não colocaria nem a palavra fácil, mas um pouco mais justa, já que é oferecida a mesma quantidade de optativa pro matutino.
Então vamos pensar como que a gente pode ir caminhando para conseguir mais matérias pro noturno, é conversar com o professor, tipo: “ó, que tipo de matéria você pensa em oferecer?”. Na SanFran tem entrado muito professor novo. E os professores novos que tão chegando, eles estão numa vontade de trabalhar, e isso no sentido de: vários professores têm procurado entidades para poder conversar: “olha, eu tô com esse projeto, eu tô com esse plano, o que que a gente pode fazer, como que a gente pode somar um com o outro pra gente construir algo legal?”. Então, vamos talvez conversar com esse professor que tem um projeto para propor e falar: “Ó, que tal esse projeto virar uma disciplina? E aí oferta no noturno.” Uma disciplina voltada para acessibilidade, dentro da grade, oferecida no noturno num horário que seja minimamente decente, que o aluno não precise sair daqui 11 horas da noite numa sexta-feira. Então, acho que pensar, conversar. E aí, conversar com os professores, entender como que se dá toda a questão também didática, porque pensar em educação, pensar no processo educacional, precisa ser pensado de duas formas: tanto no olhar do professor quanto no olhar do aluno, porque da mesma forma como uma aula completamente caótica dificulta a vida do aluno, também dificulta a vida do professor.
Então é tentar fazer esse meio de campo de alguma forma, e conversar, “professor, o que que é o centro acadêmico pode fazer pra ajudar você dentro dessa sala de aula?”. É conversar com o aluno. E aí, obviamente, não vamos conseguir conversar com todos os professores, porque nem todos os professores estão abertos ao diálogo. Temos consciência disso. Mas aquele professor que tá aberto a um diálogo, vamos conversar sobre a política de acessibilidade, sobre tornar a aula mais didática, sobre novos métodos de avaliação, sobre outros processos de ensino. A SanFran é muito clássica, é muito difícil ter acesso a esses professores e mudar uma visão enraizada que se tem de educação de ensino jurídico, principalmente.
Mas esses professores novos que estão chegando, vamos dialogar, tipo: “ó, vamos sair dessa estrutura, vamos pensar em outra estrutura, talvez de um debate”. E aí as turmas são enormes, então dividir em pequenos grupos para fazer debates, sair dessa lógica onde um professor fica lá na frente, durante 4 horas, somente jogando informação pra cima do aluno, e o aluno cansado, mexendo no celular, pensando em mil outras coisas porque ele tá cansado, porque é humanamente impossível você ficar 4 horas seguidas olhando para a mesma pessoa falando. Por mais que você ame o assunto, uma hora você vai estar extremamente cansado, a sua cabeça vai começar a divagar.
Então, não é dizer: “vamos resolver tudo”. Mas vamos tentar dialogar, vamos tentar talvez produzir pesquisa acadêmica sobre o ensino jurídico? Vamos debater? Levar para outros espaços? Vamos questionar? Trazer esse professor para pensar junto com a gente, o que é possível fazer. Tem grupos de estudo dentro da faculdade que trabalham isso. Que abordam isso como tema principal. O ensino jurídico. Então, vamos sentar para conversar com essas extensões que já trazem esse debate? E isso é muito importante. Porque a sensação que eu tenho que quando a galera propõe uma chapa para o Centro Acadêmico é: “eu vou reinventar a roda”. Gente, a roda já tá ali. Tem alguém que tá trabalhando nisso há muito mais tempo do que eu. Tem alguém que tá pensando nisso há muito mais tempo do que eu.
É ter a humildade de chegar para uma extensão que já trabalha isso e falar: “Oi, você pode me ajudar a pensar sobre isso? Como que você acha que é eficiente chegar num professor para conversar? Qual professor você já tem acesso, que já traz esse debate? Como que eu posso ajudar isso?”. Então, é justamente esse o ponto. Dar um passo atrás, conversar, ser humilde o suficiente para pedir ajuda, para poder avançar, e aí esse avanço, não afeta só aquela entidade que já trabalha esse tema, mas afeta toda uma comunidade acadêmica.
Combate às Opressões e Diversidade
Entrevistador: Perfeito. Agora falando sobre combate às opressões e diversidades no corpo docente. A aplicação das políticas de cotas enfrenta entraves na Faculdade de Direito. Quais protocolos práticos o XI adotará para apurar denúncias contra o racismo, o machismo, a misoginia e a LGBTfobia nas Arcadas?
Samuel Marins: Então, são dois assuntos. Quando a gente pensa em política afirmativa para professores dentro da SanFran, a gente tem uma situação um pouco mais delicada porque os concursos são feitos de forma departamental. Então, o edital que só tem uma vaga, obviamente ele vai para ampla concorrência. É necessário sentar, analisar, e… já existe um grupo de alunos que estão debatendo essa pauta, que estão criando propostas para poder levar pra reitoria para justamente criar estratégias… pra conseguir que exista o sistema de cotas de fato que funcione dentro da faculdade. É, de novo: vamos conversar.
E aí não é jogar nas costas dessas pessoas. Volto a dizer: o trabalho com o corpo estudantil, com as entidades não é jogar o peso de: “Ah, aconteceu um caso de LGBTfobia, um caso de racismo, de misoginia, eu vou pegar esse caso, vou jogar nas costas de uma entidade e falar: ‘Resolva’”. Não é assim que funciona. Essa consulta aos alunos é justamente para: “eu estou com essa situação aqui, eu quero resolver”. É responsabilidade do Centro Acadêmico cuidar dos alunos. É responsabilidade do Centro Acadêmico criar propostas para resolver esse tipo de situação, para tratar isso da forma mais responsável possível. E buscar as entidades não é para que elas resolvam, é para que elas, que já têm uma vivência um pouco maior, possam orientar estratégias e criar protocolos, ajudar a criar protocolos para que o XI possa resolver. Beleza, eu tô numa festa, aconteceu um uma situação de assédio, então tá, foi orientado pelo coletivo de mulheres da faculdade a fazer tal passo.
Então, primeiro a gente vai acolher a vítima. E aí, acolheu a vítima, a gente vai afastar o assediador. Depois que afastou, vamos ver que tipo de medida pode ser tomada para esse aluno, propor talvez uma formação, propor talvez um uma restrição de acesso a alguns espaços, pensar maneiras de fazer isso. E eu não tô falando que vai restringir o acesso, é tipo assim: “tá, vamos ver o que que é possível fazer, vamos ver o que que dá para fazer”. Não dá para um assediador continuar circulando pela faculdade assediando diversas outras alunas sem que de alguma forma a diretoria tenha conhecimento do que tá acontecendo.
Então, se o Centro Acadêmico não conseguiu resolver, vamos chamar a diretoria da faculdade para resolver. “Olha, esse aluno tá dando trabalho, tá cometendo, de certa forma, crime dentro da faculdade, é obrigação de vocês resolver. A gente já tentou uma maneira educativa, tentou trazer informação para essa pessoa, essa pessoa não quis resolver ou não se preocupou, então cabe a vocês resolver. Vamos ver o que é possível ser feito dentro desse cenário”. Então, eu vejo que o papel do Centro Acadêmico nesse sentido é: “vou tentar resolver; não conseguimos, vamos achar outras pessoas que possam nos ajudar a resolver; não conseguimos, mesmo assim, vamos levar para a diretoria”: “Olha, temos esse problema, então agora passa a ser uma responsabilidade de vocês porque vocês estão cientes do que tá do que tá acontecendo aqui dentro”. É justamente, volto a dizer, fazer esse meio de campo, não só entre os professores e alunos, mas entre os casos mais graves que vão acontecendo e que todo mundo sabe que acontecem dentro da SanFran. Não adianta chegar e falar: “Ah, nunca vi esse tipo de coisa acontecer”. Todo mundo sabe de uma história do Porão, todo mundo sabe de história das coisas que acontecem nas Arcadas, das coisas que acontecem dentro das extensões. É uma coisa muito importante de se abordar, de se evidenciar, porque no momento em que eu simplesmente finjo que esse tipo de situação não existe, eu tiro a oportunidade de que outras pessoas também pensem sobre esse problema. Eu tiro a oportunidade de que outras pessoas se eduquem sobre esse problema.
Então é justamente isso: vamos trazer evidência para o que a gente tem, vamos trazer ferramentas para minimizar ou resolver essa situação aqui dentro. E aí, a partir disso, acredito que caminhar para um para uma faculdade minimamente mais inclusiva e uma faculdade onde as pessoas possam se sentir confortáveis de alguma forma.
Trabalho, Estágio e Vida Universitária
Entrevistador: Agora, passando para uma pergunta sobre trabalho. A rotina das estudantes no Largo de São Francisco é marcada por um malabarismo diário entre a exigência acadêmica, os compromissos externos que garantem o sustento e a inserção prática na área, e a busca por momentos de lazer e saúde mental. Essa sobrecarga constante frequentemente afasta os estudantes da participação política e da própria vida universitária. De que forma o XI de Agosto atuará para centralizar o apoio à rotina discente, oferecendo orientações práticas sobre direitos, flexibilidade de horários e rotinas, garantindo que o CA seja um ponto de apoio real para quem precisa equilibrar as demandas dentro e fora das Arcadas?
Samuel Marins: É um assunto bem delicado, porque… é muito fácil, mais uma vez digo, chegar aqui e prometer fazer diversas mil coisas. Só que o perfil da SanFran tem se tornado cada vez mais diversificado, e aí a gente tem o aluno que ele vai estagiar porque ele quer experiência, porque ele quer mais conhecimento, e a gente também tem o aluno que vai estagiar porque ele precisa da bolsa de estágio. E aí não dá pra eu chegar pra um aluno que tá estagiando porque, única e exclusivamente, ele quer conhecimento, porque esse aluno quando chegar em casa, vai ter o seu responsável de alguma forma ali, pra dar um suporte, com a comida pronta, com a cama já arrumada, tudo certinho. E um aluno que vai chegar em casa e ele tá sozinho, em outro estado, e precisa se virar para fazer a janta.
Então não dá pra pensar em algo único pra um problema diverso, de certa forma. É justamente ir lutando pra, por exemplo, beleza, a gente tem um projeto que tem sido desenvolvido já há um tempo, sobre o Sindicato dos Estagiários, então vamos tentar dialogar, vamos tentar conseguir melhores condições de trabalho pra esse estudante que precisa trabalhar, e àquele que tá atrás de conhecimento. Vamos trabalhar, talvez, em manter atualizada a planilha de estágio, que a pessoa, às vezes, quer trocar de estágio, não sabe onde procurar. É fortalecer o projeto de Yoga da Cadeira, porque existe um projeto dentro da SanFran onde as pessoas fazem yoga dentro da faculdade, e aí não é só um espaço onde a pessoa vai lá, e tipo: “Tá, quantas pessoas sabem que isso existe dentro da faculdade? O quanto que isso é acessível para todos? Vamos pensar talvez num horário melhor, vamos ver se quem tá tocando isso pensa sobre essa questão da rotina”. E a SanFran, principalmente, em relação à saúde mental, ela é muito dura no início, no sentido de: a pessoa sai de um período extremamente estressante, que é o período de vestibular. E aí, você passou um ano da sua vida, acabou de sair do ensino médio, ou já tá há um tempo estudando pro vestibular, fazendo cursinho, aí você consegue entrar na faculdade, você fala bem assim: “Nossa, o pior já passou”, e quando você chega, é esse clima de competitividade, de: “todo mundo tem que ser extremamente excelente, porque você tá na melhor faculdade”. E isso, não tô dizendo que: “ah, chegou aqui, chuta o balde, faz tudo de qualquer maneira”. Não é assim que funciona. Você realmente precisa ser bom, porque o mercado de trabalho não vai absorver uma pessoa meia-boca, isso é fato.
Mas existem outras formas de conseguir a excelência. Existem outras formas de que esse caminho não seja tão tortuoso, não seja tão difícil. É pensar: “tá, o aluno chegou aqui, sofreu algum tipo de preconceito na SEREC”… E eu ouço diversos relatos de pessoas que tão passando preconceito na primeira semana, no primeiro dia dentro da faculdade. Então vamos tentar diminuir essa situação. Vamos tentar criar um lugar onde essa pessoa se sinta mais confortável, e aí a partir desse momento que ela se sentir mais confortável a faculdade vai tentar engolir essa pessoa, vamos tentar fortalecer o ECOS, que já é um sistema que tá acontecendo dentro da faculdade, vamos tentar tornar ele mais público, vamos tentar pedir mais psicólogos para dentro da SanFran, para que esse acompanhamento não seja… tão esporádico, que o aluno, ele tenha ali, talvez uma pessoa de referência, pra que ele possa pedir socorro. E a quantidade de pessoas que estão dentro da SanFran, em sofrimento mental é tão grande, e essas pessoas, não… muitas vezes, não têm a quem recorrer, não tem para quem pedir ajuda.
Talvez treinar outros alunos e aí não treinar no sentido de: “ah, você vai resolver o problema daquela pessoa que tá chegando com a saúde mental completamente deteriorada”. Não, mas talvez ter uma escuta, ser um ombro amigo, “eu não vou resolver os seus problemas, mas hoje você tá precisando chorar? Então beleza, chora aqui, vamos conversar aqui hoje e depois você segue a sua vida”. Ou, “ah, não consigo hoje, cadê o psicólogo do ECOS? Cadê o psicólogo do Quadrilátero? Cadê a assistente social?”. É justamente esse ponto, porque quando… eu fui entrar na SanFran, e aí eu entrei pela política de cotas, eu tive que mandar minha documentação 15 vezes, porque toda vez que eu mandava a minha documentação, ela voltava. E isso durou uma semana e meia, e foi um sofrimento, foi uma tristeza, um medo de perder a minha vaga. E aí eu descobri depois de 15 dias que a assistente social tava de atestado e não era ela que tava recusando a documentação da minha matrícula. Então, é isso, a funcionária é uma pessoa, ela corre o risco de ficar doente. E essa pessoa que ficou doente, tecnicamente teria que ter alguém para cobrir o trabalho dela, e não tinha. E aí o fato de não ter alguém para cobrir o trabalho dela causou um sofrimento mental num calouro.
É isso, vamos, talvez, fortalecer a luta dos funcionários para que eles consigam mais pares para trabalhar. É fortalecer a luta dos sindicalizados. Mostrar para os funcionários também que o corpo estudantil não é inimigo de quem tá aqui trabalhando. O corpo estudantil, de alguma forma, se preocupa, respeita e é grato pelo trabalho que tem sido desenvolvido aqui dentro, porque, se não tem um técnico, se não tem uma assistente social, se não tem alguém para fazer a parte burocrática para que a SanFran funcione, a gente não teria SanFran. E é reconhecer também a importância do trabalho dessas pessoas, e acredito que através do reconhecimento, facilita o trabalho deles de alguma forma.
Porque uma coisa que a gente tem muito dentro da SanFran é o aluno que vai tratar o funcionário como se fosse… de alguma forma um vassalo, que acha que ele pode falar com o funcionário da faculdade de qualquer forma. E é entender, aquela pessoa, ela tá ali trabalhando, ela não tá ali te prestando um favor, ela tá trabalhando. Ela saiu de casa para poder trabalhar. Ela merece o respeito da mesma forma como o aluno, quando tá estagiando, não gosta de ser maltratado por um cliente, por um assistido. Então, é colocar as pessoas no lugar de pessoas. É para que os alunos consigam enxergar o outro, também, e eu acho que isso também é papel do centro acadêmico, de trazer essa conscientização para dentro da faculdade, para que o aluno possa começar a pensar sobre questões que estão além da bolha, porque acho que é uma coisa que a gente viu na última eleição e na política atual é que infelizmente a gente vive em bolhas.
O algoritmo entrega aquilo que a gente quer, os nossos amigos são pessoas que em grande maioria pensam igual a gente. Então, quando eu saio da minha bolha, eu preciso aprender, eu preciso saber a conviver com aquilo que é diferente do que eu sou. E isso parte pelo respeito. E eu entendo que a grande maioria, das pessoas que estão dentro dessa faculdade, nunca conviveu com o diferente, nunca viu o diferente, e agora que você tá tendo oportunidade e isso eu acho que é a maior dádiva da universidade pública: esse intercâmbio de ideias, você poder visitar um universo diferente do seu.
Então que os alunos dentro dessa faculdade possam aproveitar, porque quando eu tô dentro de uma universidade que só pensa no externo, e acho que isso é uma coisa muito importante de ser falada, é uma preocupação da nossa chapa, é justamente, entre aspas, “não ter o rabo preso com ninguém”, com nenhum partido político, com nenhuma entidade, justamente pra poder dialogar com todo mundo, porque no momento que eu penso: “tá, beleza, eu vou reservar o salão nobre pra fazer um evento, mas esse evento não é pensado nos estudantes, esse evento não tem sentido pra dentro dessa faculdade”. Entendo a importância da SanFran no cenário nacional, beleza, vamos lutar porque é o maior centro acadêmico do Brasil, tem uma relevância política absurda. Só que, se eu não penso no meu estudante, o centro acadêmico, ele perde o sentido. Então, é importante pensar no de fora, mas é muito mais importante pensar em quem tá aqui dentro.
Bicentenário da Faculdade
Entrevistador: Agora vamos falar sobre o bicentenário. No ano em que a Faculdade de Direito completa 200 anos, o XI se depara com a escolha entre a comemoração festiva e o acerto de contas crítico com as contradições históricas da instituição. Como a sua chapa pretende conduzir o efervescente calendário do bicentenário garantindo o protagonismo dos discentes da graduação e a valorização da memória das lutas democráticas?
Samuel Marins: Isso é muito bom, porque se você olhar pela faculdade, ali na parte do museu, tem muita história, a SanFran tem muita história. Só que é necessário pensar: tá, beleza, a que custo essa história foi construída? Ela precisou passar por cima de quem para essa história ser construída? E é muito importante dizer que tenho muito orgulho de estudar na SanFran, porque é a melhor faculdade de Direito do Brasil, é muito difícil de entrar, ela representa e ela oferece oportunidades absurdas para quem tem o privilégio de estudar aqui dentro, para quem tem o prazer de estudar aqui dentro, para quem lutou muito para conseguir estudar aqui dentro. E ter acesso a todas essas oportunidades é muito bom.
Só que vamos pensar no que esses 200 anos representam? E aí eu volto: o que que esses 200 anos representam para o ensino jurídico? O que que tem sido ensinado dentro dessas Arcadas? Vamos questionar talvez essa cultura onde o aluno ele tem que se virar do primeiro até o último ano, onde ele vai pegar um caderno e vai ter que destrinchar tudo e ele vai se tornar o melhor, mas ele se tornou o melhor porque ele aprendeu a se virar sozinho. E é bom porque daqui saem ótimos advogados, isso é inquestionável, saem ótimos juristas, inquestionável.
Só que o quão oneroso isso é pro estudante? Quão difícil foi? E vai ser difícil porque faculdade é difícil, faculdade não é um mar de rosas, é sempre uma labuta conseguir o diploma. Faculdade pública infelizmente ainda se paga com a alma. Essa é a realidade. Só que vamos pensar, vamos questionar? Beleza, é a faculdade que formou o ministro do STF, formou presidente da República. O que que essas pessoas fizeram quando estavam no poder? Que tipo de política, para quem que essas pessoas serviram? Elas serviram a bolha na qual elas viveram inseridas a vida inteira, elas pensaram em outras realidades além do próprio umbigo?
Acho que pensar nos 200 anos é: vamos trazer talvez uma diversidade para dentro da faculdade, e eu não digo diversidade no sentido racial, não estritamente no sentido racial, de gênero, de sexualidade, mas vamos trazer diversidade, vamos trazer outros públicos que talvez fogem um pouquinho de dentro do que a SanFran tá acostumada. Vamos trazer um aluno de escola pública para dentro dessa faculdade para que ele possa sonhar com a possibilidade de acessar o ensino superior? Vamos ensinar para esse aluno de escola pública que conheceu a SanFran, que ficou deslumbrado com as cortinas enormes vermelhas, com uma arquitetura que é intencional para que nos sintamos, para que as pessoas se sintam pequenas dentro desse espaço, vamos pensar a partir dessa arquitetura, o que pode ser feito para que as pessoas também possam sonhar?
Porque é um ponto muito importante, quem mais paga imposto na nossa sociedade é a população mais pobre, e é a população mais pobre que não tem acesso a esse espaço. Então, vamos conversar com as escolas públicas, vamos conversar com projetos sociais, vamos conversar com cursinho pré-vestibular que foge do centro, vamos trazer o pessoal da periferia para pensar esse espaço? Vamos pensar enquanto bicentenário a população que tá em volta da faculdade, a população que precisa às vezes entrar aqui dentro para beber uma água. A população que de alguma forma mora aqui perto, vamos pensar a segurança pública?
E aí não pensar a segurança pública no sentido de um policial estar aqui fora apontando arma na cara dos alunos, e eu digo isso no conhecimento de causa. Já tive um fuzil apontado na minha cara aqui na frente da faculdade quando eu estava chegando. E vamos pensar a segurança pública no sentido de realmente, um lugar que seja confortável, que seja seguro, mas sem uma hostilidade policial? Porque essa hostilidade, ela tem um alvo muito certo. Então, é trazer nesses 200 anos uma formação para os seguranças, e aí eu sei que o segurança ele tá ali para trabalhar, só que é desconfortável um aluno estar sentado nas Arcadas… E um questionamento que tem sido levantado ultimamente é: por que as Arcadas têm estado tão vazias, por que que os alunos não tão ocupando esse espaço? Além da questão da exploração do estágio, tem a questão que às vezes o aluno tá lá e um outro aluno chega pro segurança e fala: “Ah, tem que tirar aquele cidadão que tá ali”.
E aquele cidadão é um aluno, e mesmo se não fosse, estamos em uma universidade pública. Pertence ao público. Sou contra, por exemplo, colocar catracas dentro da faculdade, porque tem que ser um lugar de livre circulação, tem que ser um lugar de intercâmbio de ideias, de realidades. Então, quando penso nos 200 anos é: vamos pensar em atividades para quem tá no entorno, vamos pensar para quem tá longe e também pensar atividades para quem tá dentro. Tá, como que o aluno que tá aqui dentro ele pode vivenciar esse período histórico da faculdade?
Vamos trazer talvez parcerias, trazer atividades culturais, e é uma das propostas da nossa chapa, trazer um podcast para que a entidade, as extensões, tenham o protagonismo, que possa trazer alguém que é relevante para a área que aquela extensão explora para poder debater, para servir de referência para outras pessoas que estudam o mesmo tema. Trazer durante o período cultural, as atividades culturais, coisas que façam sentido para os alunos, trazer talvez uma atividade de teatro, uma atividade de dança, uma atividade de poesia, trazer exposições, porque uma coisa que eu ouvi no último Sarau dos Antigos Alunos é: o aluno que faz SanFran pode fazer qualquer coisa.
Então, vamos buscar esse aluno que fez SanFran, que tá fazendo qualquer outra coisa e que foge do tradicional, que foge do advogar? E aí nesse Sarau eu conheci uma aluna que virou cantora e hoje ela mora na Itália, e ela veio, cantou, foi uma apresentação linda. Então, beleza, vamos dizer para o franciscano que tá aqui dentro nos 200 anos: “Olha, você tá numa faculdade tão boa que você pode fazer qualquer coisa, inclusive não fazer “nada”, entre aspas, mas mudar de área. A formação que você teve aqui vai te servir como base para a vida, mas você pode seguir outra carreira, você pode fazer outras coisas, você pode seguir outros caminhos”.
Isso é muito importante. Então, criar eventos é uma das propostas para que os 200 anos façam sentido para os alunos, que os alunos de alguma forma sejam protagonistas, se vejam, se enxerguem, que possam sonhar… porque aí é uma realidade, muita gente vem fazer a SanFran, porque a família pediu, vem fazer porque é uma faculdade que vai oferecer muita oportunidade, porque é uma faculdade que vai abrir muitas portas, que vai oferecer um bom emprego, e que às vezes não gosta do Direito e isso é uma realidade e tá tudo bem. A SanFran também é para quem não gosta do Direito. E dentro disso, vamos ver o que que o Direito pode te oferecer, porque o Direito é uma área tão ampla.
Então, você pode… Você gosta de cultura e você faz Direito, então vamos talvez explorar, trazer uma palestra sobre Direito e Cultura? Você gosta de Direito e Esporte, que é o meu caso, então vamos trazer uma atividade de Direito Desportivo? Vamos apresentar aquilo que foge do óbvio? Vamos… Você gosta de moda e Direito, então vamos unir essas duas coisas, vamos trazer para dentro das Arcadas nesses 200 anos o que faça sentido para os alunos, para que os alunos conheçam outras possibilidades e dentro dessas outras possibilidades ele veja se faz sentido atuar dentro do Direito tradicional, da magistratura… é voar com as asas que a SanFran possibilita.
O Porão
Entrevistador: Obrigado, Samuel. Agora a gente vai passar para a oitava pergunta e aqui nós iniciamos as perguntas que os candidatos não sabem quais são as perguntas, mas eles têm uma noção por conta dos eixos apresentados. Eu queria perguntar sobre o Porão. O Porão é a sede física do Centro Acadêmico e centro da vida social universitária, mas frequentemente divide opiniões quanto ao seu uso e sua manutenção. Como sua gestão pretende conciliar a preservação, segurança e redução de danos no Porão?
Samuel Marins: Então, a redução de danos, e aí você fala redução de danos no sentido de depredação do… depredação do patrimônio? Pensei que era redução de danos quanto aos alunos, porque aí eu já ia voltar na questão de trazer informação, porque as pessoas quando chegam na vida universitária, grande parte vem da família de uma forma muito restrita e o que a pessoa vai fazer da vida dela dentro da universidade é uma questão dela, só que ela precisa ter acesso à informação para que ela não coloque a vida dela em risco. Acho que isso é uma preocupação muito importante. E a questão de depredar o patrimônio do Porão é também uma questão de tanto de conscientização do aluno que tá ocupando esse espaço de entender que ele precisa ter o senso de pertencimento, que aquela cadeira que ele tá usando, se ele quebrar, ele vai ficar sem aquela cadeira.
É importante ele ter esse tipo de consciência e que tenha consequência. É assim: ó”, você quebrou a cadeira, não foi um acidente, então é justo que você se responsabilize para arcar com o custo daquela cadeira, porque foi o uma escolha sua quebrar aquela cadeira”. É esse tipo de política que eu que eu acredito que tem que ser implementada. Acho que a segurança, e aí podemos pensar a segurança de duas formas: a segurança do portão para fora, temos o Silvão, que é um ótimo funcionário, temos o Luciano, que é outro funcionário também muito bom: beleza, os dois estão dando conta do da segurança do espaço?
Vamos questionar como que tá o dia a dia do trabalho dos dois? Vamos sentar com eles e articular as melhores estratégias? Talvez aumentar o espaço da grade, ver até que metragem é possível colocar essa grade? É necessário ter talvez mais alguém dando suporte durante as festas? E do Porão para dentro, eu acredito que o que coloca as pessoas com uma insegurança é justamente a impunidade das coisas que acontecem lá. Aconteceu alguma coisa dentro do Porão, vamos chamar o Luciano e o Silvão, que também precisam de treinamento, de ter um protocolo de como agir em cada situação, aconteceu um caso delicado lá dentro, então que eles sejam orientados da melhor maneira possível para retirar os alunos que estão causando problema, de uma forma que não necessariamente seja truculenta, de uma forma harmoniosa, vamos tentar fazer a mediação do conflito que tá acontecendo, vamos tentar entender o que tá acontecendo. O espaço do Porão pode ser melhor utilizado para que o aluno, ele possa ficar mais à vontade ali dentro, que ele possa se sentir pertencente, porque não é só se sentir pertencente dentro das Arcadas, mas no entorno. Então, vamos ver que tipo de móvel faz sentido para dentro do Porão? Faz sentido ter um puff? Faz sentido ter mais cadeira? Faz sentido guardar as cadeiras a partir de determinado horário? O dia que vai ter festa, como que a gente faz com essa mobília?
Então, tudo isso são coisas que precisam ser pensadas, porque não adianta chegar e dizer: “Vamos pintar todo o Porão”. Tá, e a história do Porão? E o os nomes que já estão escritos lá? As pessoas que já passaram por aquele espaço? Vamos ver como aproveitar esse espaço da melhor forma possível? Vamos trazer talvez… outras possibilidades de jogos? Vamos conversar com a Bel para trazer talvez outras possibilidades de bebida, de alimentação? Vamos ver o que faz sentido para dentro daquele espaço? Vamos tentar talvez consertar o banheiro que tá quebrado já há um tempo?
Vamos ver questão de sabonete no banheiro, questão de papel? Porque coisas pequenas fazem uma diferença, traz um impacto muito grande. Talvez vamos ver o tipo de piso, tá todo mundo satisfeito com esse tipo de piso, não, vamos mudar? E aí, tô dando um exemplo bem grotesco, vamos dizer assim, mas é: vamos conversar com o estudante para ver o que faz sentido, o que que ele gostaria de ter nesse espaço, o que que faz com que ele se sinta confortável dentro desse espaço para que ele se também se sinta pertencente. Porque se eu não gosto do lugar ao qual eu frequento, obviamente que eu não vou ter zelo por ele. Então, pensar em política para que o Porão seja preservado é pensar em formas com que o aluno se veja dentro daquele espaço, que ele se sinta pertencente dentro daquele espaço
Autonomia e Partidarização
Entrevistador: Agora eu queria falar sobre a autonomia do movimento estudantil e partidarização. Historicamente, o XI de Agosto equilibra sua atuação entre pautas corporativas internas e grandes embates da política nacional, como foi a eleição de 2026. Qual deve ser a margem de atuação do XI de Agosto na política externa e na relação com partidos políticos e governos, garantindo que a entidade mantenha sua independência e legitimidade para criticar retrocessos, independentemente de quem esteja no poder?
Samuel Marins: Muito bom, porque… esse foi um dos principais pontos para a chapa ser pensada. Hoje o que a gente tem de centro acadêmico e o que tem tido nos últimos anos, são centros acadêmicos que servem a partidos políticos, a determinados partidos políticos. E quando, de alguma forma, eu só penso na política externa com o viés de um partido político, e eu não tô dizendo que partidos políticos não são importantes, eu tô falando que mais importante do que ter um partido político, é ter autonomia. No momento que um partido político manda no que acontece aqui dentro, ele vai fazer ótimos eventos, ele vai fazer eventos magníficos, só que os estudantes ficam em segundo plano.
Vamos pensar: “ó, beleza, vamos trabalhar na política externa, vamos ir pra rua nas eleições presidenciais”, e agora no próximo ano não é um ano eleitoral, acho que isso é importante destacar, mas que o governo que a gente tem hoje… fiquei muito feliz que o Lula ganhou pra presidente, eu tava apavorado, com medo de não virar… mas é um governo que precisa, de alguma forma, ser criticado. Precisa ter críticas. Então, vamos debater, sobre como a gente tá falando de política externa, sobre o orçamento das universidades federais que estão em São Paulo, e estão sendo sucateadas?
Vamos debater, no orçamento do Estado, sobre a verba que tá indo pras universidades estaduais? Vamos trazer debates que estão fora e que são importantes para a vivência da sociedade a qual a gente está inserido, pra dentro das Arcadas. Só que no momento que eu estou preso com um partido político, eu não posso questionar o orçamento. Eu não posso questionar nada que acontece no entorno e apenas eu tenho que seguir ordens. Então eu vou questionar sempre um político específico, e eu não abro o debate pra outras questões. E dentro desse ponto a nossa chapa, a coisa mais importante foi: “não vamos ter filiação com nenhum partido, não vamos ter filiação com nenhum coletivo político”.
E aí, foi uma coisa que já foi perguntada diversas vezes: “ah, mas a chapa de vocês é de qual corrente política?”. Gente, somos de esquerda porque entendemos que os nossos posicionamentos, enquanto pessoas, estão mais alinhados com os da esquerda. E é isso. É, “mas ah, vocês são filiados ao PSOL?”. “Não. Vamos conversar com o PSOL? Sim, sempre que for necessário.” “Ah, vocês são de algum coletivo, de alguma corrente?”. “Não, vamos conversar com essa corrente quando entendermos que conversar com essa corrente é benéfico para os alunos”. E o ponto mais importante é: as pessoas que estão colocando, de alguma forma a cara a tapa dentro do centro acadêmico, e aí eu digo isso por mim e com as pessoas da minha chapa com quem eu conversei, a gente não vai colocar nossa cara a tapa para um partido que eu não sei qual é o compromisso dele.
E aí, muita gente diz: “ah, eu sei que o PT defende isso, eu sei que o PSOL defende aquilo”. Mas na hora do vamos ver, eles vão proteger a institucionalidade deles. E o centro acadêmico que se vire. Essa é a realidade. Então, a minha preocupação, a preocupação da nossa chapa, é com o estudante. E vamos dialogar com os partidos, vamos propor atos nacionais, vamos tentar fazer coisas para a política externa, quando fizer sentido para o estudante. Quando fizer sentido pro nosso cenário político, quando fizer sentido pro cenário político nacional, no viés daquilo que a gente acredita. E o que que a gente acredita é justamente que, precisamos de diferentes pessoas em diferentes espaços. Defendemos uma educação pública, gratuita e de qualidade. Os nossos ideais, eles estão alinhados com os da esquerda, mas não com uma esquerda que acha que tudo se resolve numa palestra bonitinha, que vir aqui fazer mídia, que as coisas vão se resolver de fato. Mas, tipo: “tá, vamos propor, talvez, um projeto de lei? Vamos pensar em política pública? O que pode ser feito de fato? O que a influência do centro acadêmico pode trazer de benefício para a população de um modo geral?”.
Porque a SanFran tem 200 anos. A SanFran trouxe muitas contribuições. Então vamos continuar contribuindo. Vamos continuar fazendo dentro daquilo que é possível fazer, conversando com as pessoas certas, conversando com quem faz sentido. E não sendo obrigados a de alguma forma, deixar de dialogar por conta de partido A ou B.
A Greve de 2026
Entrevistador: Por último, eu queria perguntar sobre a greve. A conjuntura universitária recente foi marcada por fortes movimentos de paralisação e táticas de negociação com a Reitoria e com o DCE. Qual a avaliação da sua chapa sobre os efeitos da paralisação de 2026 e como o XI deve atuar na construção da unidade estudantil e nas disputas do Conselho de Centros Acadêmicos, o CCA da USP?
Samuel Marins: Então, é um assunto bem complexo porque eu tive muitas críticas à forma como a greve foi conduzida. E no momento que se pensa uma greve, se propõe uma greve e quem tá debatendo, quem tá negociando não escuta os alunos, não precisa das assistências estudantis, não tem de alguma forma nenhum compromisso de fato, e volta a preocupação com a política externa, é notório que vai dar errado. E aí, o que eu entendi de saldo dessa greve: retaliação dos professores. Foi isso que aconteceu, porque os professores ficaram insatisfeitos, os alunos ficaram insatisfeitos, a Reitoria ficou insatisfeita, ficou todo mundo insatisfeito. E acredito que tem que lutar e da forma certa. Acredito que, se o estudante ele recebe a orientação, se o estudante participa do debate, se a proposição dele é de alguma forma escutada e não silenciada, porque o que aconteceu, o que se viu durante a greve foram diversas tentativas de manipular o estudante, de manipular o comando de greve, foi constante manipulação, e manipulação externa, manipulação partidária… uma das frases que foram escutadas durante a greve foi “Ah, essa greve vai atrapalhar a reeleição do Lula”.
Tá bom, beleza, a preocupação com a reeleição do Lula é muito importante, é super válida, só que também é válido se preocupar com o aluno que mora no CRUSP e ganha R$ 300,00 de PAPFE. É válido se preocupar com a forma como o bandejão é entregue para o aluno. Então, vamos se preocupar com a política externa, vamos se preocupar com a interna, vamos ouvir o aluno, vamos entender o que esse aluno que resolveu fazer greve tem a dizer, o que que ele tá gritando. Porque eu entendo que para chegar numa situação de greve é uma situação extrema, é uma situação de necessidade, aquele aluno precisou gritar, ele precisou vir para as Arcadas e botar a cadeira tampando a passagem.
Então, vamos escutar o que ele tem a dizer, e aí é importante que o Centro Acadêmico faça esse papel de escuta. Porque no momento que… eu faço aquilo que eu quero, aquilo que eu sou de alguma forma obrigado, e parece que é dívida de jogo que esse povo tá pagando, que não faz o menor sentido, o aluno mais uma vez é jogado de escanteio. A minha leitura da greve é: tivemos muito prejuízo pela forma como ela foi conduzida, onde os alunos não tiveram oportunidade de fala, não foram escutados, uma irresponsabilidade muito grande em sair da greve sem um termo de retaliação. Tudo isso influenciou e acho que o mais grave é: dentro de um cenário completamente caótico, tentar vender uma imagem de que tá tudo bem. Se tivesse tudo bem não teria tido greve, acho que é isso o ponto.
Considerações Finais
Entrevistador: Por último, eu gostaria das suas considerações finais. Então, o que a Chapa Ubuntu tem para falar para o franciscano agora nesse final da entrevista?
Samuel Marins: Acho que um resumo de tudo é: somos uma chapa independente porque acreditamos que o aluno consegue conversar com o aluno. O aluno que, de alguma forma tá dentro do Centro Acadêmico para dialogar, ele sabe qual é a vivência, ele sabe o que acontece de fato. Por isso que a nossa chapa é uma chapa tão diversa, e aí não diversa no sentido de “votem em nós, porque somos a esquerda que vai mudar a política nacional”, não é essa a intenção. Pretendemos ter uma atuação política que tenha um impacto nacional, mas é muito mais sobre: queremos facilitar a sua vida aqui dentro. Entendemos o quão difícil é vivenciar essa faculdade, entendemos o quão cansativo é, você sair do estágio, sair do trabalho, vir para a faculdade, ficar o dia todo e comer uma comida talvez não tão agradável, entendemos o que é você chegar cansado na sala de aula para poder estudar e ficar 4 horas cochilando durante a aula. E a nossa proposta é tentar tornar esse ambiente minimamente agradável para que você, o tempo que você passe aqui, seja mais confortável, que você possa escolher passar mais tempo aqui de forma voluntária, pro tempo que você tá aqui como obrigado a estar seja mais suave… a universidade ela tem que ser, ela precisa ser, um pouco mais leve do que ela tem sido.
A nossa chapa não quer dialogar apenas com os alunos negros, a nossa chapa não quer dialogar apenas com as mulheres, apenas com a comunidade LGBTQIAPN+, não queremos dialogar com pequenos grupos, queremos dialogar com todo mundo na medida do possível. E aí dialogar com todo mundo não é assumir uma política legalista onde tudo é aceitável, é necessário pontuar isso, que o dialogar com todo mundo é pensar no bem-estar de todos que estão aqui dentro. E se o bem-estar de um coloca em xeque o bem-estar de outros 20, 30 ou outros 100 alunos, então talvez o bem-estar desse aluno não vai ser atendido na nossa gestão. Se essa pessoa tá acostumada com um mundo girando apenas em torno desse indivíduo, talvez não seja a proposta da nossa chapa. A nossa chapa é “Eu sou porque nós somos”, então é pensar no coletivo, é pensar em como tornar isso bom pra todos, não apenas para uma pessoa, não apenas para um grupo seleto.
Entrevistador: Perfeito! Essa foi a entrevista com a Chapa Ubuntu para as eleições do XI. Samuel, muito obrigado e também muito obrigado à chapa por aceitar.