A Arcádia

A Arcádia renasce viva como renasce a Academia de Letras e como sempre renascerá. Há mais de quarenta edições (localizadas) e a última vez em que houve Arcádia foi em 1984, com a edição de nº 100: eles não sabiam qual fora a última, e por isso talvez a arbitrariedade da derradeira escolha do número, a partir do qual seguimos. No período, surgiram também outras frutíferas publicações, como Território Livre, Fênix, Carcará. Atualmente, com a última ressurreição da Academia, o retorno desta revista não é mera contemplação ou comemoração daqueles que se foram, mas forma de se apoiar no ombro de gigantes para poder olhar mais longe. É ao passado que se recorre, criticamente, para que se torne possível pensar um futuro melhor em meio ao presente que engole os primordiais instintos da espécie humana e a natural criatividade do franciscano.

Há revoluções tecnológicas acontecendo a todo momento e permanece singular a poesia em plano etéreo diferenciado. Não se substitui mais meramente o trabalho braçal, mas também o esforço psíquico. A inteligência artificial escreve poesias e romances completos em segundos, devora livros e deglute milhões de dados daquilo de mais singular que nasce do coração humano, depois cuspindo maquinalmente tudo em um intento de ser como nós.

Nós é que vomitamos! Nós é que gritamos! Nós é que cantamos!

O ócio em que se pode pensar na vida e olhar para as paredes e Arcadas até que surja uma ideia é forma de resistir, e quem sabe assim se preserve aquilo que há de mais sagrado e que nem conheçamos, mesmo que profano seja. O bucólico espaço de gramas e cordeiros para que possa florescer o espírito surge novamente em meio às frestas das pedras de um Largo localizado na Sé: Arcádia.

Pois emerge a necessidade de um canal para que os estudantes, sufocados em meio à ocupação pelas máquinas de toda área em que se poderia exercer a livre arte do escrever, inclusive o jurídico, possam autenticamente criar. Os desafios enfrentados no momento em que se publica esta revista não são os mesmos de quando se escreveu a primeira edição, há noventa anos, embora certas características permaneçam e se repita o último Eon. Grita o ímpeto humano e a vontade de ser e não ser e fazer livremente.

A Faculdade de Direito do Largo de São Francisco completa duzentos anos, e tem na arcada tripla de sua entrada o nome de três poetas, e não de três grandíssimos juristas. Esta preocupação de seus alunos com aquilo que vai além das letras dos códigos deve perpetuar-se, mesmo que sem objetivo algum, apenas porque sim e por que não? Escrever por escrever, desenhar por desenhar e cantar por cantar são formas de resistir à lógica dos comandos e, em meio a um planeta que derrete em suas próprias máquinas e deuses alquímicos, uma Arcádia renasce hoje para que nela possa morar o espírito franciscano, que nada mais é do que o espírito humano por essência.

Conselho editorial

KALEL RODRIGUES DE SOUZA

Editor-chefe da Arcádia

kalelrrigues@usp.br
kAROLINA ZANIN

Editora da Coluna Ex Litteris

karolzanin@gmai.com
bianca nasciutti

Editora da Coluna Parlatório

bnasciutti@gmail.com
sAMUEL SIMÕES NICÁCIO

Editor da Coluna Arcadas

samuelsimoesnicacio@gmail.com

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