ENTREVISTA COM KEPPLER, A “OMBUDSWOMAN” DO BICENTENÁRIO

Entrevistador 1: Olá, Keppler! De início, parabéns por sua vitória nas eleições ao cargo de Ombudsman do XI de Agosto. Para iniciarmos a entrevista, qual seu nome completo?

Keppler: Meu nome é Isabella Cerchiaro Keppler.

Entrevistador 1: Primeira pergunta: Keppler, essa eleição foi uma das maiores, se não a maior eleição para a ouvidoria do XI de Agosto. Você teve uma expressiva votação de 300 votos, o segundo candidato 137, o terceiro 78 e o quarto 2 votos. Ao que você atribui a importância dada para a eleição deste ano e como é a sensação de ser a ombudswoman a partir de agora?

Entrevistador 2: Ainda mais com tamanha vitória.

Keppler: Eu acredito que diversos fatores influenciaram essa eleição a ser tão grande. Pelo que comentaram comigo – porque eu sou caloura, sou da turma 199 –, faz um tempo que as eleições vêm tomando proporções maiores. Certamente não é o que era há cinco anos. Tem isso, teve esse escalonamento. Eu acho que o fato de ser o bicentenário é extremamente importante também, porque vai ser um ano de muitos eventos e que vai exigir uma participação muito ativa do centro acadêmico. Eleger o ombudsman – e agora a ombudswoman – do bicentenário, acredito que tem impactado mais as pessoas. Outro fator que eu acho que impactou bastante foi o fato de nós termos um grupo muito diverso concorrendo. Nós tivemos um homem nordestino, a gente teve uma mulher, a gente teve o Thauas… [risos] Brincadeira! Mas a gente teve um grupo muito diverso de pessoas com propostas muito diferentes, tanto na campanha quanto no estilo de escrita nas cartas de proposta. E tiveram muitos motivos pessoais também que acabaram escalonando essa campanha. Foi uma campanha muito estressante, porque tiveram alguns desentendimentos entre os candidatos, que eu não vou especificar, mas certamente isso também influenciou. Então foram diversos fatores que acabaram representando esse número expressivo de votos. Foram muitos votos e acho que foi muito lindo a campanha que a gente construiu. Eu fico muito feliz que muitas pessoas estão conhecendo o cargo de ombudsman. Uma coisa que me incomodava muito quando eu ia explicar para as pessoas, quando eu ia conversar sobre a minha proposta, era que muita gente não sabia o que era o ombudsman. A maioria eram calouros, porque os veteranos normalmente têm uma noção, mas alguns veteranos também não sabiam o que era. E, bom, eu acredito que a proporção que se tomou também reflete a proporção que agora vai ter na leitura dos textos e que o cargo em si vai tomar. Acredito ser um reflexo do que vai acontecer daqui para frente.

Entrevistador 2: Um dos seus principais motes de campanha foi realizar uma recaracterização do conceito de ombudsman, criando uma ombudswoman para o Bicentenário, uma ombudswoman. Qual você acha que seria a relevância de a gente ter uma mulher na ouvidoria do Centro Acadêmico XI de Agosto no Bicentenário da nossa faculdade?

Keppler: Bom, acho que às vezes não é nem necessário comentar a falta de representação que nós temos na história da faculdade. Por exemplo, a gente está agora com a nossa segunda diretora mulher em 200 anos. Eu não acredito que, por eu ser mulher, eu tenha necessariamente opiniões diferentes ou uma escrita diferente dos outros candidatos que eram homens, mas eu realmente acredito que a vivência feminina, uma visão feminina, impacte. A visão feminina do que eu vivi na minha vida e do que eu percebo, às vezes algumas sutilezas que passariam despercebidas por outros não vão passar por mim por eu ser mulher. Mas eu não acho que esse seja o principal ponto da importância de ter uma mulher. É realmente a representação feminina. A gente está no Bicentenário, é um tempo de mudança, a gente precisa de coisas novas. Dizendo isso tanto para o ombudsman quanto para o Centro Acadêmico, a gente precisa de coisas novas… é a velha e sempre nova Academia, mas a gente está muito no “velha”. E quando a gente traz o “sempre nova”, é curioso que normalmente a gente reproduz os aspectos negativos lá de fora, não os positivos. Eu não vejo essa mudança que a gente vê fora das Arcadas sendo representada aqui dentro. Por isso que eu acho que muitas pessoas engajaram por eu ser mulher, porque a gente precisa de coisa nova, a gente precisa de uma cara nova. Já faz muito tempo que são homens. A gente já teve ombudswomans antes, não conseguiram me dizer a data…

Entrevistador 2: Eu ouvi falar também…

Entrevistador 1: Eu também procurei, mas não achei. O pessoal não registra quais foram os ombudsmans ultimamente.

Keppler: Sim. Eu sei que a gente teve, mas faz muito tempo. Eu não sei quantas foram; acredito que se foram três, foram muitas. Mas a gente precisa de coisa nova. A gente precisa dar essa renovada. Eu acredito que uma perspectiva diferente dos homens que vêm assumindo esse cargo vai ser muito relevante no Bicentenário, principalmente com as mudanças que esperamos que venham.

A disputa eleitoral durou quatro dias e foi agitadíssima desde seu início, ocorrendo principalmente através de meios digitais, como os grupos de Whatsapp da Faculdade e o Instagram. Houve figurinhas, discussões, memes, jingles, cartazes colados e os quatro candidatos fazendo “pátio” no dia da eleição. Os resultados foram: Keppler – 300 votos, Thauan – 137 votos, Wendell – 78 votos e Arthur Gena – 2 votos.

Entrevistador 1: Quais você acredita que serão os maiores desafios a serem enfrentados com a incumbência do cargo de ombudsman, ao ser a ombudswoman do Bicentenário?

Keppler: Bom, eu acredito que seja uma pergunta muito dependente da chapa que vai assumir. Da postura que a chapa vai assumir, porque eu acredito que o cargo de ombudsman seja um reflexo do que o Centro Acadêmico vai fazer. Mas existem alguns problemas gerais que eu acredito que, infelizmente, se aplicam para todas as chapas. O começo do jubileu do Bicentenário foi esse ano, e muitos problemas como, por exemplo, uma mesa composta só por homens, ou figuras controversas sentando nessa mesa, passaram despercebidos pelo Centro Acadêmico. Eu acredito que, infelizmente, as situações vão se repetir no Bicentenário e a gente vai precisar de um Centro Acadêmico que esteja mais ativo quanto a isso. Mas eu acredito que o papel da ombudswoman vai ser muito forte principalmente em fiscalizar o que o Centro Acadêmico vai estar fazendo, porque a gente é o maior Centro Acadêmico do país. E tem coisas que a gente não pode se calar ou que a gente não pode fingir que não estão acontecendo para agradar a diretoria. O Centro Acadêmico tem que ser mais ativo. E eu acredito que o papel da ombudswoman no Bicentenário vai ser muito dessa fiscalização, infelizmente. Porque é triste a gente ter que pensar nessa possibilidade que provavelmente vai se concretizar.

Entrevistador 1: Agora, sobre o Bicentenário: para você, quais serão os maiores desafios a serem enfrentados ao ser a ombudswoman do Bicentenário?

Keppler: Bom, vai ser uma eleição muito significativa. Acredito que muitos interesses pessoais vão vir, tanto por parte do Centro Acadêmico quanto por parte da RD, de tomar destaque no Bicentenário. Eu acredito que a maior importância não vai ser só transmitir os anseios da comunidade, mas realmente a fiscalização. Acredito que esse vai ser meu maior desafio. E eu vou ter que ter essa cobrança maior com o Centro Acadêmico, porque vai ser um momento histórico. E a reprodução de paradigmas e de situações como essas não podem acontecer. Então essa fiscalização vai ser muito importante.

Entrevistador 2: Sobre isso que você falou dos papéis e da importância desse papel que vai ser de ser a ouvidora do Centro Acadêmico XI de Agosto, principalmente no Bicentenário, e principalmente agora que a gente está vendo também um ano de eleição, um período conturbado mesmo na política, não só franciscana, mas na política brasileira: o que você pretende fazer que aproximaria o franciscano dessa ouvidoria? Quais métodos você usaria sobre seus textos ou sobre suas opiniões, quais seriam o seu plano para isso?

Keppler: Bom, o Urioste, que foi ombudsman dois anos atrás, acabou criando o Instagram da ouvidoria, o que já foi de grande ajuda. Eu acredito que já deva chegar muito mais nas pessoas com esse Instagram. Eu coloquei na minha carta-programa essas ideias: eu vou realizar a cada 15 dias uma caixinha no Instagram, nos stories mesmo, para ouvir o que a comunidade tem pensado sobre os acontecimentos. Eu propus também escrever dois textos por mês ao invés de só um, porque eu acredito que quando você escreve só um texto por mês muitas coisas passam despercebidas ou perdem o timing. Isso só não vai ser cumprido se não acontecer nada, o que eu não acho que seria interessante escrever um texto sobre nada. Mas dificilmente isso vai acontecer, a gente sabe disso. Então tô planejando fazer de sexta-feira, a cada 15 dias uma caixinha para realmente ouvir o que a comunidade tá pensando, porque não é uma coisa só minha. Não vou ser só eu que vou estar falando. Eu vou ter que ser essa ponte entre a comunidade e o Centro Acadêmico. É importante eles saberem o que a comunidade tá pensando e eu saber o que a comunidade tá pensando. Obviamente minha opinião vai impactar, mas é da comunidade também. Então vai ter essa caixinha. E eu propus também criar uma conta em rede social diferente: eu propus criar no Twitter. Mas no Twitter vai ser mais focado na divulgação dos textos, não a captação de opiniões, porque a gente sabe que o filtro das opiniões no Twitter ia ser muito difícil de eu controlar, o que vai chegar na caixinha. Por exemplo, no Instagram eu vou ter um controle do que é relevante e do que não é relevante. Mas no Twitter é mais pra chegar na comunidade franciscana que tá mais por lá. Porque igual eu tava falando com o Gustavo antes da entrevista começar, o grupo dos veteranos 199 é uma bagunça, os textos vão se perder lá. E eu acredito que uma parcela muito pequena dos franciscanos leem os textos. Dá pra ver no engajamento dos posts do Instagram: são dois comentários, são 30 curtidas. Quantos realmente leram o texto com atenção? É sempre importante levar isso em conta. E além disso, uma divulgação maior, principalmente quando os calouros da turma 200 chegarem. É importante que a turma inteira já comece sabendo quem é a ombudswoman, sabendo que eu sou uma ponte que eles podem acessar. Porque no começo do ano, o Mathias escreveu um texto pra gente, mas não teve esse alcance que deveria ter tido. É importante que a turma do 200 já chegue sabendo quem é a ombudswoman, sabendo qual é o meu papel de verdade. Não é um papel de ficar fazendo fofoca, de ficar fazendo piadinha, é um papel sério. É a ponte que eles vão ter pra expressar a opinião deles quanto ao Centro Acadêmico XI de Agosto e pra realmente me ouvirem falar sobre o que está acontecendo, sobre um panorama geral do assunto e verem a fiscalização que eu tô fazendo. Eu vou explicitar as ações do Centro Acadêmico. Então é importante que eles saibam quem eu sou. Acredito que com essa combinação, tanto da divulgação no Twitter quanto a caixinha a cada 15 dias no Instagram com uma data marcada e essa recepção mais intensa da turma 200, o papel de ombudsman vá crescer muito. Vá crescer muito, o que é importante. Porque não é um cargo que dá pra gente ignorar, não dá pra ser só piada, não dá pra ser só resenha, parafraseando um antigo candidato.

Entrevistador 2: Perfeito. Eu tenho duas perguntas: uma mais séria, a outra um pouco mais humorística. A primeira é disso sobre o que você falou dos textos, deles se perdendo nos Veteranos. Inclusive eu tô meio preocupado de que muitos desses textos podem estar se perdendo. A minha primeira pergunta seria: você pensa em alguma forma de preservar esses textos, por exemplo, pra que não seja perdido do mesmo jeito que já foi perdido, do mesmo jeito que não sabemos quais foram as outras ombudswomans mulheres, do mesmo jeito que, antes do Urioste, apenas alguns veteranos do quinto ou do quarto ano conhecem os ombudsmans, e antes deles ainda menos? Você tem algum plano de guardar os textos, fazer algum registro de seu mandato como ombudsman? Essa seria a primeira pergunta. A outra pergunta é: você falou do Twitter, mas e o Urubusp? Vai rolar conta da ombudswoman no Urubusp?

Keppler: [Risos] Bom, vou responder primeiro a humorística porque é muito mais fácil: podemos ter. A conta no Urubusp tá vinculada ao meu e-mail e é a minha pessoal, mas com certeza dá pra gente divulgar por lá. Infelizmente o Twitter vai cair em desuso, o Urubusp é a rede social perfeita e maravilhosa, não tem competição. Inclusive, pro Urubusp só falta ter o cardápio da SanFran, porque eles só têm os cardápios das outras unidades…

Entrevistador 12: Tem da SanFran já.

Keppler: Tem já? Já atualizou?

Entrevistador 2: É que ele não fala quando atualiza. Você tem que ver quando o Ulisses postou pra atualizar, mas a Play Store tá pra atualizar.

Keppler: Então vou atualizar em breve. Mas podemos ter, sim.

Entrevistador 2: E é interessante ver que o Urubusp acho que já tá em 12 a 15 mil usuários, e a USP tem 60 mil alunos, então isso é em volta de 15 a 20% da USP. Falando para uspianos, é provavelmente o maior meio de comunicação que existe.

Keppler: Com certeza.

Entrevistador 1: Eu tenho a impressão de que o Urubusp vai cair a algum momento, deve ser retirado da Play Store…

Entrevistador 2: O Big Business vai chegar e vai matar o Urubusp. O Elon Musk assim, chegando no Ulisses e estrangulando…

Keppler: Eu espero que não cheguem as propagandas. Inclusive, não vai ter propaganda de bet nos meus textos, gente [risos]. Podem ler os textos, não tenham esse medo. Mas quanto à questão dos textos se perderem, realmente, a gente não tem… Eu, por exemplo, não consegui acessar os textos do Zeferino, que foi o quê, três ombudsmans atrás. Isso do Urioste ter criado o Instagram auxilia muito. A gente tem um Drive em que estão sendo mantidos os textos, mas a gente sabe muito bem que o Drive talvez não seja muito confiável. Talvez dê pra tentar fazer um registro físico, um registro impresso. Eu acho que é a maneira mais segura, além do Drive. Inclusive, seria talvez um trabalho pra fazer em parceria com a Academia de Letras, não sei se vocês trabalham com isso por aqui.

Entrevistador 2: A gente tem o Departamento de História, inclusive mantendo a biblioteca, que pesquisa a história da faculdade. Normalmente nunca se envolveu muito com as outras instituições, porque as instituições históricas normalmente pesquisam a si mesmas. Então, por exemplo, o Centro Acadêmico XI tem o seu próprio arquivo, com as próprias coisas. Mas eu acho que o ombudsman seria muito interessante a gente procurar. A gente tem um grupo com os antigos membros da faculdade que podem talvez fazer uma linha do tempo com os antigos ombudsmans…

Keppler: E restaurar os textos que a gente perdeu…

Entrevistador 2: …e procurar esses textos. Inclusive, se quiser um registro físico, a biblioteca tá aberta. A gente tem um espaço lá só pra coisas da São Francisco, então seria muito bom manter um registro histórico, talvez, dos textos dos ombudsmans.

Keppler: Desses textos, porque são textos que refletem a situação da faculdade em si.

Entrevistador 2: É uma forma de você ver o que estava acontecendo naquele ano de uma maneira micro. Todo mundo sabe do macro, o que aconteceu num ano específico você vai ver se pesquisar na internet, vai achar um artigo, mas o ombudsman é mês a mês, é um negócio bem específico.

Entrevistador 1: E nós tivemos um hiato na década passada em que não teve jornais da São Francisco. Os textos dos ombudsmans foram perdidos… Talvez tenha em algum lugar ou outro, mas a maioria vai estar perdida eternamente, praticamente. A não ser que entre em contato com os ombudsmans, mas a gente não tem a visão dos alunos desse período da faculdade. E é uma coisa que a gente sempre teve desde 1827, praticamente.

Entrevistador 2: Mas acho que seria muito bom isso de tentar procurar esses arquivos, talvez imprimir alguns, criar um Drive unificado com tudo, com todos os textos e todas as pessoas que foram do cargo. Acho que seria um negócio bem legal pra fazer.

Keppler: Um projeto legal pra gente manter essa tradição e realmente não perder os textos.

Algumas das principais “figurinhas” autorais disseminadas durante a campanha nos grupos de Whatsapp.

Entrevistador 1: Então, Keppler, esse ano a gente viu um dos períodos mais conturbados da história recente da São Francisco, a mobilização por pautas de permanência estudantil, que foi a greve dos alunos. Quais são as suas visões sobre a greve deste ano e sobre a condução do XI de Agosto nessa paralisação?

Keppler: Bom, eu acho que é de opinião geral que foi extremamente mal conduzida. Eu participei da greve, eu estava aqui. Eu não participei do comando de greve, mas eu estava aqui nos piquetes, eu votei pelo “sim” da greve. Mas foi perdida. Foi perdida, a gente não teve nenhuma melhora, nenhuma das propostas foi cumprida em si, nem o ônibus circular que estava sendo prometido pra vir ao BUSP (já passou o prazo), o bandejão até hoje falta proteína, atrasa pra entrar. Foi extremamente mal conduzida e os interesses pessoais do Centro Acadêmico, da gestão do Candeia, tiveram um impacto muito grande nisso. Interesses pessoais relacionados à eleição desse ano e aos próprios membros. Foi muito triste, na verdade. É um movimento que foi unificado com a USP inteira, é um movimento em que muitos centros acadêmicos, não só o nosso, pecaram. Foi uma oportunidade perdida, de verdade, principalmente na porta do Bicentenário. Poderia ter feito uma diferença muito grande. E a questão da permanência estudantil é muito triste aqui na São Francisco, é muito triste que a gente tenha que se submeter a comer larva. É muito triste que a gente tenha que se submeter a receber um auxílio tão baixo na cidade cara que é São Paulo. É muito caro viver em São Paulo, muito caro. A gente acaba o mês com R$ 5,00 na conta se a gente estiver com muita sorte. É muito triste que um movimento tão unificado como esse tenha se esvaziado. Foi uma pauta esvaziada, foi um tempo perdido. Eu participava aqui da SanFran, pouquíssimos alunos, pouquíssima movimentação de verdade, era muito no campo das ideias. E o movimento estudantil dentro da SanFran – o comando de greve, o Centro Acadêmico e os coletivos envolvidos – estavam muito ocupados em se atacar entre si e expor o problema dos outros do que realmente se unir e fazer a diferença pro povo franciscano. E além disso a comunicação foi água abaixo, ninguém sabia o que estava acontecendo. Eu sabia porque eu estava aqui, porque eu conversava com as pessoas, mas o franciscano que voltou pra sua cidade natal, o franciscano que estava em casa ou realmente passava aqui às vezes não sabia o que estava acontecendo. Então foi um momento conturbadíssimo que não resultou em nada. E isso é muito triste. Acredito que a comunicação faria muita diferença. Acredito que se eu tivesse sido a ombudswoman nessa época, eu teria feito um trabalho muito mais presente. Realmente o Mathias soltou os textos, mas precisava de mais. Infelizmente precisava de mais e precisava muito mais do Centro Acadêmico. Foi uma isenção e foi de um pessoalismo da parte deles muito forte, foi um esvaziamento. Foi muito triste e foi um momento muito conturbado. Acho que era essa a pergunta.

Entrevistador 2: Uma pergunta relativamente relacionada a isso, principalmente da questão do ombudsman na greve: o ombudsman faz um texto por mês e a greve durou um mês, portanto houve um texto para resumir uma greve inteira que em si teve várias reviravoltas, etc. Você disse sobre fazer dois textos ao mês, mas você também se propõe a extraordinariamente, em um momento que o exija, escrever talvez um por semana ou outros textos extraordinários para explicar um pouco mais do tema, pelo menos, e para falar um pouco mais de uma situação que não pode ser apenas resumida em duas páginas de PDF?

Keppler: Com certeza. Eu coloquei na minha carta-programa inclusive isso, que o número dois não é um limite, eu estabeleci como um mínimo. Em momentos extraordinários como esse, até em momentos não extraordinários mas em que realmente acontecerem muitas coisas – na greve, cada semana, cada AGE, cada reunião do comando que havia mudava completamente o cenário –, é sim necessário fazer mais textos. Eu com certeza vou me propor a fazer quantos textos forem necessários conforme a situação vá mudando. Porque é igual você disse, a greve durou um pouco mais de um mês, não dava pra ter ficado com um texto em um mês só. Foi o que eu disse: quando a gente fica em um texto por mês como base, e como muitas vezes limite (não posso falar com certeza, mas acredito que esse ano o ombudsman não tenha extrapolado de um texto por mês), muitas coisas se perdem. Muitas coisas perdem o sentido e não faz mais sentido falar. E são coisas que precisam ser faladas, porque a situação ou já teria passado, ou já seria um cenário completamente novo. Então, sim, eu vou me propor a escrever mais textos, e o número dois não vai ser o limite, vai ser a base.

Entrevistador 2: Acho que é a primeira situação onde um jornal externo ao ombudsman fala do ombudsman, o que de novo acho que mostra essa questão do crescimento. Porque quase sempre há poucos jornais externos, agora há a Arcádia e o Gazeta.

Keppler: Obrigada. Inclusive furou muito a bolha franciscana essa eleição de ombudsman. Vieram muitas pessoas de outros institutos – da Poli, da ECA, da EACH – comentar sobre o ombudsman, querendo saber o que era…

Entrevistador 2: Tem um conceito semelhante em outras unidades? Acho que não, não é?

Keppler: Não. Acredito ser uma coisa exclusivamente franciscana, tanto que no edital está que foi algo criado pelo Centro Acadêmico XI de Agosto. Vereadores vieram me seguir no Twitter e mandar mensagem pra saber o que tava acontecendo [risos]. Até o jornal O Furgão, não sei se vocês sabem… vieram conversar comigo. Furou muito a bolha, então não foi um crescimento só na SanFran, foi um crescimento geral. O que realmente não faz muito sentido pra comunidade externa [risos], porque eu acredito que o ombudsman seja um cargo muito voltado para a dinâmica interna da São Francisco e do XI de Agosto. Não é algo que vá afetar diretamente o dia a dia de quem é da Poli ou da ECA, por exemplo. Mas ao mesmo tempo é muito legal ver esse interesse, porque querendo ou não acaba jogando mais luz sobre o nosso trabalho e aumentando a nossa responsabilidade. Acredito que seja a junção dos fatos que comentei antes: ser uma mulher, ser o bicentenário e ter esse engajamento realmente muito mais forte da comunidade.

Entrevistador 2: Com certeza. Mostra também como a política do Largo de São Francisco e as coisas do XI de Agosto continuam tendo uma projeção gigante que extrapola as Arcadas.

Entrevistador 1: Foi um ótimo adendo que você trouxe. Se você quiser comentar um pouco mais sobre essa questão externa…

Keppler: Ah, era realmente isso. Achei curioso ter furado a bolha. Não necessariamente benéfico, porque realmente acredito que o ombudsman seja para a comunidade franciscana – apesar de que quem estiver fora da comunidade e não seja da São Francisco pode ler os textos para ter uma noção do que está acontecendo. Afinal, a gente é o maior centro acadêmico do país. Agora uma opinião pessoal minha: acredito que o que acontece aqui é um reflexo do que está acontecendo lá fora, de maneira menor, mas a eleição do XI é um espelho. Um espelho muito exagerado, uma lente de aumento, mas do que acontece lá fora. Então, se alguém tiver de fora tiver curiosidade e estiver lendo esta entrevista e quiser ler os textos, é interessante. Mas realmente é um cargo mais para a comunidade franciscana. Então é uma bolha que existe por um motivo, mas não vou reclamar do pessoal conhecer mais.

Entrevistador 1: Você falou agora sobre o XI de Agosto e as eleições do XI de Agosto serem um reflexo, a lente do que acontece lá fora. Minha próxima pergunta é justamente sobre isso. A ouvidoria também tem a função de mediar o debate das eleições do XI de Agosto e acompanhar todo o processo do XI que ganhar também, e assim vai. Quais são as suas expectativas para a eleição do XI que já está chegando, Keppler?

Keppler: Tô apavorada! [Risos] Brincadeira.

Entrevistador 1: Sua análise do jogo?

Keppler: Olha, eu acredito que vai ser uma eleição muito atípica, considerando a situação que as chapas que a gente já conhece estão enfrentando. Estou vendo muita inatividade das chapas opostas, principalmente agora nesta reta final. Claramente os comentários que estão acontecendo refletem o que vimos o ano inteiro: não há realmente uma movimentação de esperança de ocupar o cargo do XI de Agosto, tanto das chapas que já conhecemos quanto do surgimento de chapas novas. Não estou vendo isso, estou conversando com as chapas que já existem e realmente não sei o que esperar das chapas que vão concorrer. Mas até agora tenho visto muita… a palavra não é inatividade, não é amortecimento também…

Entrevistador 2: Letargia?

Keppler: É uma letargia. Que inclusive, tecendo um comentário externo, é o que estou vendo nas eleições gerais do país. É na semana que vem e não está nem de perto tão polarizado quanto estava na última eleição. Claro que a polarização que teve na eleição anterior foi bizarra e não foi saudável de maneira alguma, mas “apatia” é a palavra. Essa apatia que a gente está observando, tanto lá fora quanto aqui dentro, é muito esquisita e preocupante. Vemos que já estamos tão anestesiados que não gera reações. Não estou vendo muita movimentação das chapas, realmente não sei o que esperar. Acho que temos que esperar para ver o que vai acontecer depois da Peruada, porque acredito que a Peruada seja um termômetro do que vai acontecer. Se a Peruada for boa, acredito que o Candeia tenha chances de se reeleger, e assim espero que façam um XI de Agosto melhor do que foi este ano, porque este ano realmente tiveram muitas atitudes tristes da parte deles e mal conduzidas. Quem sabe o surgimento de uma nova chapa ou a reconstrução de chapas anteriores? Mas realmente é isso, estou sentindo muita apatia. Muita apatia, perguntei aos veteranos e me disseram que isso não estava acontecendo nos anos anteriores; a esta altura do jogo já tinha começado essa movimentação.

Entrevistador 1: E na sua visão, Keppler, ao que você atribui essa apatia? O que você acha que pode ter causado essa apatia? Não precisa ser um fator só.

Keppler: Agora vai ser uma visão de caloura, que realmente pode estar errada, mas vou falar o que estou sentindo: acho que o franciscano está cansado. Cansado de ver briga todo dia no grupo… Apesar de no começo ser divertido, a gente está cansado. Acredito que as chapas estejam cansadas também. Acredito que seja uma anestesia mesmo, o reflexo do sentimento geral da comunidade, porque querendo ou não as chapas são formadas pela comunidade. Acredito que seja um cansaço, e talvez, pelo menos na parte dos calouros, uma alienação. Muitos calouros com quem conversei ao longo do ano não sabiam quem eram as chapas, não sabiam a importância do XI de Agosto. Então acho que é uma mistura de apatia por alienação e por cansaço.

Mathias, Ombudsman do período 2025-2026, “passa a faixa” para Keppler após apuração dos votos no Porão da SanFran.

Entrevistador 3: Posso fazer uma pergunta também? Voltando um pouco ao que você falou sobre esse reflexo nas eleições atuais, o XI de Agosto sempre foi um importante símbolo para o país todo, e o cargo de ombudsman, agora ombudswoman, sempre foi bastante importante dentro das eleições. Queria saber como você se imagina desempenhando esse papel. O que você imagina poder fazer para ajudar essa eleição a ser um pouco mais “XI de Agosto”?

Keppler: Os debates são bem acalorados! [Risos] Não sei se você chegou a ver alguma live do ano passado…

Entrevistador 2: Eu vi a live mais live de todas, que é estar lá na frente das cadeiras e tudo. A live nem faz jus ao que é aquilo.

Keppler: É preciso ter muito culhão. Foi uma coisa que debati muito comigo mesma antes de me inscrever para ser ombudswoman: “eu vou ter o culhão para fazer isso?” Resposta: vou. Mas vou ter que ser bem casca-grossa. Vou ter que realmente controlar a situação, porque se deixar rolar, tenho até medo de onde pode acabar. Bom, acho que não há nada mais “XI de Agosto” do que esse espetáculo, infelizmente. Vai ter show, vai ter espetáculo, vai ter “recua, fascista, recua” como puxaram para o Mathias no ano passado… Mas é um debate acalorado, não tem como eu conter essas emoções que tomam os estudantes e as chapas durante os debates do XI de Agosto. Mas, como eu disse, além de tomar uma postura mais séria nos textos do que venho observando dos ombudsmans anteriores, planejo tomar uma postura mais séria quanto aos debates também. Não acredito que seja algo do tipo “deixa rolar para ver até onde vai dar”. Não, tudo tem um limite dentro do aceitável. Uma coisa que percebi observando as lives e os debates anteriores é que precisamos nos atentar mais ao tema da São Francisco e não a temas muito externos. Sabemos que as chapas são vinculadas a partidos e movimentos externos, mas estamos falando da São Francisco, não de questões externas. Precisamos nos ater a isso também, apesar de questões externas impactarem aqui. São esses pequenos problemas em que planejo ser mais fiscalizadora. Os debates precisam ser mais sérios, apesar desse acaloramento, dos ânimos ficarem agitados, precisamos ter essa seriedade.

Entrevistador 2: E sobre uma questão que você falou não só na carta, mas em todo o seu planejamento, principalmente agora nessa questão dos debates, sobre uma questão de tom: eu diria que o Mathias… acho que nunca o vi tão sério na vida como nos debates. Ele foi extremamente rígido, extremamente sério, ao ponto de levar um “recua, fascista, recua” por ter censurado uma pergunta. Mas eu diria que nos textos ele acaba sendo um negócio bem descontraído, como se fosse um Twitter ou uma thread, algo mais desse tipo. Você fala sobre uma seriedade maior no cargo de ombudsman. Como você equilibraria essa seriedade maior com o humor inerente ao cargo, que é um cargo que tem até o “ridendo castigat mores”?

Keppler: Acredito que o “ridendo castigat mores” seja mais relacionado à conexão com a comunidade. Precisamos de alguma maneira chamar a atenção e fazer com que as pessoas leiam os textos, e bom, isso eu tenho. Apesar de eu ser usuária do Twitter [risos], tenho bastante desse humor. Se você abrir meu Twitter, vai ver que não escrevo nada parecido com o que vou escrever nos textos. Mas tudo tem seu limite. Acredito que muitas vezes esse humor acabou ofuscando a seriedade realmente do que esteja acontecendo, e esse humor ofusca a seriedade do cargo de ombudsman. Muitas pessoas, inclusive durante a eleição, falavam no grupo: “mas não é um cargo para se levar a sério, que campanha é essa?” E eu discordo completamente. Acredito que os textos têm sim que ter uma seriedade, não só em momentos como uma greve – esse é um momento em que eu não aplicaria tanto humor assim, porque a seriedade não pode ser ofuscada pelo humor. Acredito que não vá ser fácil achar esse ponto de equilíbrio. Acredito que os primeiros textos vão ser realmente um teste para ver o que as pessoas pensam, quanto de humor elas precisam no texto ou o quanto é aceitável. Mas planejo trazer um pouco mais de seriedade. Claro que o humor vai continuar, acredito que a balança esteja muito mais inclinada para esse lado humorístico, que tem que ter no cargo de ombudsman, não vou tirar isso, mas precisa de mais seriedade. Foi uma coisa que falei durante a campanha e nos textos: precisa de mais seriedade. Mas o humor não vai sair, isso eu garanto. Ainda vai ter descontrações, mas os textos vão ser mais sérios.

Uma das imagens da campanha de Keppler

Entrevistador 1: Keppler, para encerrar, uma pergunta mais geral: o que os franciscanos podem esperar da nossa ombudswoman e de seu mandato?

Keppler: Bom, eu quero ter muito mais conexão com a comunidade, planejo estar muito mais presente. Tanto fisicamente… “fisicamente” é muito amplo, mas quero estar muito mais presente para a turma 200, principalmente. Quero ter muito mais essa conexão, então planejo ser uma ombudswoman muito aberta a opiniões externas, não vai ser só a minha opinião. Esperem o humor, que vai ter, esperem fiscalização, esperem muita imparcialidade. Já vou adiantando: sou amiga de pessoas de chapas diferentes, sou amiga de pessoas da RD, do Candeia, de pessoas que participaram do Reconstrução, de pessoas do Juntos, mas isso de maneira alguma vai significar parcialidade em momento nenhum. Em momento nenhum. Quando me inscrevi para o cargo, eu já sabia que isso era uma coisa que não poderia existir. Então esperem muita imparcialidade. Diria que esperem presença mesmo. Quero estar presente, quero mudar a cara do cargo de ombudsman. Não quero que continue essa coisa meio underground que poucos conhecem, que só meus amigos vão ler os textos. Não, quero que as pessoas leiam, quero que conheçam, e espero que esse engajamento na eleição de ombudsman continue no ano que vem. Já estou falando do próximo ombudsman. [Risos] Mas é algo que não posso deixar passar, acho que agora é o momento de falar: espero que isso continue, que a gente continue crescendo com esse cargo, porque é um cargo que pode fazer muita mudança. É um cargo que realmente pode moldar a opinião da comunidade. Porque quando você externaliza os pensamentos, o que está acontecendo, quando você fiscaliza e cobra, é algo que molda opiniões, não é um comentário tecido solto, é um texto que vou estar entregando. Mas é isso, esperem mais presença, esperem mais fiscalização no bicentenário. Como disse na primeira pergunta, vai ser um momento em que vou ser bem chata, vou estar bem presente, já estou avisando principalmente o Centro Acadêmico: vou estar em cima, bem no pé, porque a gente não pode continuar perpetuando problemas, e não só os que vimos este ano, mas os que temos visto no bicentenário como um todo. Esperem mais proximidade da comunidade. Não dá para ser um cargo isolado e pouco conhecido. Eu realmente queria mudar a cara do ombudsman, tornar uma coisa muito mais da comunidade, não uma coisa esquecida e um cargo de brincadeira.

Entrevistador 1: Perfeito. Você tem mais alguma coisa que gostaria de falar?

Keppler: Não, acredito que não. Acho que em todas as perguntas eu acabei colocando um pouquinho a mais do que vocês perguntaram para ficar bem pessoal essa entrevista.

Entrevistador 2: Não, foi muito boa a entrevista mesmo. Você trouxe muito bem a sua visão tanto do que já viveu no ano, quanto expandiu muito para o que a gente vai ter no próximo ano. E eu gostei do que você falou agora, do “próximo ombudsman”, e assim vai…

 Keppler: Já estou jogando para a frente [risos]. Mas eu realmente quero que mude a cara do ombudsman.

Entrevistador 2: Ou da próxima ombudswoman…

Keppler: Nesse quesito eu sou bem parcial, mas eu gostaria de ver outra ombudswoman. Vamos ver como vai ser. Quanto mais diversos os cargos forem, mais as opiniões gerais serão moldadas. Porque querendo ou não a vivência da pessoa impacta nos textos que ela vai escrever. A visão de uma ombudswoman vai ser diferente, por exemplo, de um possível ombudsman nordestino, ou de uma pessoa trans. Eu acredito que seria muito interessante a gente expandir essas visões e agora ter um acervo de textos para a gente ver como esse cargo reflete o que a comunidade franciscana quer. Porque igual eu disse, eu acredito que o engajamento que teve nesta campanha tem muito a ver com o fato de eu ser uma mulher. É o que a comunidade quer, a gente quer coisa nova, a gente precisa ter caras novas no bicentenário. E eu espero que os próximos ombudsmans sejam uma reflexão boa de quanto a SanFran está diversa e de quanto ela está mudando. E que continue assim.

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