NA CAPELA DOS LENÇÓIS

Georges Braque, 1909-10, La guitare (Mandora, La Mandore)

Lembro dos seus dedos que se moviam por cima das cordas do violão. Elas vibravam felizes. Mudavam, subitamente, da forma rígida para a composição amorfa ocupando diferentes espaços ao mesmo tempo, expandindo-se num movimento que me lembrava as explosões de estrelas, de bombas nucleares e de champanhes, com a sua espuma branca, desenhando o céu negro junto aos gritos agudos das mulheres. 

Mas o silêncio não deixa de existir no interstício das risadas abafadas. Os dedos dominavam o caos das partículas dançantes, como se o tempo antes do tempo os tivessem colocados aí, sem fim nem começo. Sem filtro que separe a carne do metal. Tudo isso se mistura lindamente num lençol infinito que cobre tudo o que há. E não há o que não haja. O vazio não há. Tudo sempre existiu no movimento infinito dos lençóis que desliza até um caminho sem fim. 

No movimento dos lençóis, no entanto, procura-se o fim. Os dedos feitos para o violão disfarçam-se de feitos para mim. O que era tudo, tragicamente, se transforma; é o desejo amargo da mordida dolorida, que escorre falsas notícias vermelhas; gritam mentiras dos olhos que sussurram. Não são. O marrom se mistura com o verde me enganando e me prendendo nas pegadas que deixei na terra molhada; uma visão pura das árvores faz doer meus olhos pequenos que ardem de doçura-veneno. Eles procuram veneno, enquanto protejo as formigas que se enfileiram uma por uma dentro do buraco deixado pelos meus pés descalços. E como coça os pés vermelhos. Mas não tenho raiva das desorientadas formigas que correm. Correm junto ao quê? Correm para onde? 

No pé da jabuticabeira minha língua encosta o macio doce que me alegra e me arrepia. Os pelos sobem lentamente e estranhamente se enfileiram como as formigas, um por um. Até que mordo o caroço amargo que me embrulha o estômago e cuspo ressentida. Nada é perfeito não. Nada é perfeito. E talvez por isso tudo seja absolutamente perfeito. Os meus dedos imperfeitos estranhos às cordas do violão não se misturam a nada, a não ser ao céu azul-bebê furado pelo sol. Eles dançam como se eu não existisse, como se eu os fosse. Fosse aquela imagem que se repete das mãos erguidas tremendo junto ao amarelo do céu e ao azul que é o amor. Mas o vento frio me interrompe e não sou os dedos, sequer as imagens repetidas e sinto o frio que bate num fluxo que não posso ver. Sou eu. Sou o que vejo e o que não vejo. 

Não via graça alguma nos meus pequenos dedos, até que pude pela primeira vez dar corda naquela caixinha. A expectativa pairava toda vez que escutava o creck creck, mesmo que soubesse o que estava por vir. Mesmo que conhecesse perfeitamente a música delicada e as voltas da bailarina de plástico. Eternamente erguida. A segunda vez que vi alguma graça em meus longos dedos foi quando encostaram nos seus. Alegria da carne que reconhece a carne. E eu reconheço a carne. Reconheço a alegria que está por vir. Que incendeia e que morre, mas continuo a aguardar esperançosa, pois sei que darei corda quantas vezes for preciso. Até ouvir o som da sua voz, dançando no ar. Sua voz conhecida caminha num fluxo rápido. E ela passa pelos tecidos dos lençóis e desliza pelo tecido do tempo, que são também os meus ouvidos.

Meus ouvidos estáticos em um não ser negro, escuro e vazio. Permanecem assim. Desmembrados, arrancados, sozinhos e estáticos na escuridão, que existe sim. Existe em algum lugar escondida nas profundezas dos buracos. Nos buracos dos meus ouvidos. Mas um fino fio azul perpassa por toda a escuridão. E a sua voz despeja todo azul em meus ouvidos e me interrompe no fluxo em que minha pele derretia e deslizava azul no nada. Sua voz, no entanto, me acorda, me faz olhar para o seu rosto e, num assombro, percebo que eu também sou você.  

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