200 anos imaginando o Brasil


Penetra surdamente no reino das palavras

Lá estão os poemas que esperam ser escritos

Estão paralisados, mas não há desespero,

Há calma e frescura na superfície intata

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário

                                        Procura da poesia – Carlos Drummond de Andrade

Tomamos o Brasil como fato dado, porém, como todos os outros países, foi e é preciso produzi-lo continuamente. A Nação, conforme defendeu o intelectual britânico Benedict Anderson em sua obra “Comunidades Imaginadas”, de 1983, é uma invenção recente, que se desenvolveu principalmente a partir do século XVIII, com o capitalismo e o Estado moderno.

O capitalismo e, em específico, a indústria editorial, beneficia-se de uma base consumidora de letramento homogeneizado e padronizado. Tomemos o exemplo da Itália onde Massimo d’Azeglio, estadista piemontês, em 1860, diante de um país recém-unificado, disse: “fizemos a Itália, agora precisamos fazer os italianos”. A maioria da população da Península não partilhava nem cultura, nem língua, nem identidade comuns. Todos os países passaram e passam pela invenção de suas nações, e a produção cultural escrita, vernacular e reproduzida em larga escala, ajudou na formação das comunidades nacionais.

O Estado Moderno, por sua vez, precisa de burocracias para construir e preservar as estruturas que sustentam uma nação: estradas que conectam, fronteiras que delimitam; escolas, hospitais, cartórios, tribunais, legislaturas, órgãos tributários, polícia… a população passa a ter cada vez maior contato com o Estado, participando de um coletivo abrangente e intrusivo. A classe burocrática é mais fluída do que a estática nobreza feudal; para galgar melhores postos na carreira pública, é necessário mudar de local de trabalho constantemente, visando sempre os principais centros de poder político e econômico. Veem-se estes funcionários públicos forçados, em
suas jornadas, a conviver com colegas de diferentes origens e a serviço de um mesmo empregador, necessitando de uma língua comum para comunicar-se e desenvolvendo, no encontro das diferentes, sínteses homogeneizadoras. O Estado Moderno dissolve as identidades locais.

As Faculdades de Direito do Largo São Francisco e de Recife, fundadas no mesmo dia e apenas 5 anos após a Independência, fazem parte de um projeto de nação que trespassa gerações de
brasileiros. Quis o destino que se localizassem nos territórios das únicas capitanias hereditárias de sucesso nas primeiras décadas da colonização: São Vicente e Pernambuco. Onde outrora fixou-se a colônia, tomou forma nosso Brasil.

Desde sua fundação em 1827, estas Arcadas formaram escritores e advogados, juristas, políticos e estadistas. Cito apenas alguns, pois de mais vidas precisaria para citar todos: O Brasil foi imaginado e traçado no indianismo de Alencar, na militância de Castro Alves, na transgressão de Oswald, na fluidez de Lygia Fagundes; As instituições de nosso
Estado foram fortalecidas com a contribuição da pena de Ruy Barbosa, os trabalhos constituintes de Ulysses Guimarães e de Miguel Reale Júnior e a ciência jurídica de Dalmo Dallari e Ada Pelligrini.

Nossa faculdade está mais ativa e diversa do que nunca; A Democracia tornou possível que nosso Brasil, outrora imaginado por poucos, agora torne-se de todos. Como acelerar este processo? Como corrigir as injustiças que impedem a realização de nosso potencial? Mesmo o idioma mais lindo torna-se fosco, frio, quando seu pleno uso é privilégio, e não direito. É no Reino das palavras que existem os poemas a serem escritos, e é neste mesmo Reino que podemos fazer de nosso país nova poesia: em teses, livros, manifestos, roteiros, discursos, leis, e tantas outras formas de expressão. Estes muros guardam 200 anos de versos. Finalizo o texto com mais uma estrofe:



Chega mais perto e contempla as palavras

Cada uma

Tem mil faces secretas sob a face neutra

E te pergunta, sem interesse pela resposta,

Pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?

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