Por Henrique Kodato

Da série “Em cada canto do Largo”
Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
Estão paralisados, mas não há desespero,
Há calma e frescura na superfície intata
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário
Procura da poesia – Carlos Drummond de Andrade
Tomamos o Brasil como fato dado, porém, como todos os outros países, foi e é preciso produzi-lo continuamente. A Nação, conforme defendeu o intelectual britânico Benedict Anderson em sua obra “Comunidades Imaginadas”, de 1983, é uma invenção recente, que se desenvolveu principalmente a partir do século XVIII, com o capitalismo e o Estado moderno.
O capitalismo e, em específico, a indústria editorial, beneficia-se de uma base consumidora de letramento homogeneizado e padronizado. Tomemos o exemplo da Itália onde Massimo d’Azeglio, estadista piemontês, em 1860, diante de um país recém-unificado, disse: “fizemos a Itália, agora precisamos fazer os italianos”. A maioria da população da Península não partilhava nem cultura, nem língua, nem identidade comuns. Todos os países passaram e passam pela invenção de suas nações, e a produção cultural escrita, vernacular e reproduzida em larga escala, ajudou na formação das comunidades nacionais.
O Estado Moderno, por sua vez, precisa de burocracias para construir e preservar as estruturas que sustentam uma nação: estradas que conectam, fronteiras que delimitam; escolas, hospitais, cartórios, tribunais, legislaturas, órgãos tributários, polícia… a população passa a ter cada vez maior contato com o Estado, participando de um coletivo abrangente e intrusivo. A classe burocrática é mais fluída do que a estática nobreza feudal; para galgar melhores postos na carreira pública, é necessário mudar de local de trabalho constantemente, visando sempre os principais centros de poder político e econômico. Veem-se estes funcionários públicos forçados, em
suas jornadas, a conviver com colegas de diferentes origens e a serviço de um mesmo empregador, necessitando de uma língua comum para comunicar-se e desenvolvendo, no encontro das diferentes, sínteses homogeneizadoras. O Estado Moderno dissolve as identidades locais.
As Faculdades de Direito do Largo São Francisco e de Recife, fundadas no mesmo dia e apenas 5 anos após a Independência, fazem parte de um projeto de nação que trespassa gerações de
brasileiros. Quis o destino que se localizassem nos territórios das únicas capitanias hereditárias de sucesso nas primeiras décadas da colonização: São Vicente e Pernambuco. Onde outrora fixou-se a colônia, tomou forma nosso Brasil.
Desde sua fundação em 1827, estas Arcadas formaram escritores e advogados, juristas, políticos e estadistas. Cito apenas alguns, pois de mais vidas precisaria para citar todos: O Brasil foi imaginado e traçado no indianismo de Alencar, na militância de Castro Alves, na transgressão de Oswald, na fluidez de Lygia Fagundes; As instituições de nosso
Estado foram fortalecidas com a contribuição da pena de Ruy Barbosa, os trabalhos constituintes de Ulysses Guimarães e de Miguel Reale Júnior e a ciência jurídica de Dalmo Dallari e Ada Pelligrini.
Nossa faculdade está mais ativa e diversa do que nunca; A Democracia tornou possível que nosso Brasil, outrora imaginado por poucos, agora torne-se de todos. Como acelerar este processo? Como corrigir as injustiças que impedem a realização de nosso potencial? Mesmo o idioma mais lindo torna-se fosco, frio, quando seu pleno uso é privilégio, e não direito. É no Reino das palavras que existem os poemas a serem escritos, e é neste mesmo Reino que podemos fazer de nosso país nova poesia: em teses, livros, manifestos, roteiros, discursos, leis, e tantas outras formas de expressão. Estes muros guardam 200 anos de versos. Finalizo o texto com mais uma estrofe:
Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
Tem mil faces secretas sob a face neutra
E te pergunta, sem interesse pela resposta,
Pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?