Nós, temerários, e a morte azevediana

Eu sei como essa história acaba e logo mais vos conto. É que esse final é tão fútil quanto a própria jornada, igualmente previsível. Eu sei. E, como sei, devo falar. Eu vou falar e, pronto, estará dito, e o segredo, que não é segredo, estará revelado. É tão pontual o ato: num momento não se sabe e no outro é tão óbvio. Inefável. Tanto que me falta diligência para pegá-lo, pinçá-lo da esteira astralmente fatal dos eventos e dizer “aí está o cerne! Aí está a ação!”. E talvez pelo primeiro ou pelo segundo motivo que vos apresento, não consigo. Ora, o claro não se fala. Todos nós, clarividentes como supomos ser, não falamos o óbvio: tão carente de elegância e fatal. E eu, comprometido com minha promessa feita a um turbilhão de pessoas que desconheço e tão cioso de minha palavra para com essas pessoas que agora me são um tudo, bramo, com pedantismo sinergicamente arrojado e pudico, que o fim é a morte. Dir-me-eis que não esperáveis essa revelação? Sinto-me um mago travesso, por tamanha obra de disfraze, pela piscadela do gato de Alice que, dotada de acidulante atrevimento, sugere saltar de um lado ao outro, ainda que o olho aberto volte exatamente ao lugar onde foi inicialmente fechado, tão pouco necessitado de provar sua astúcia marota à sua plateia. Era a isso que queria chegar – meu Deus, as vértebras me regozijam por inteiro! Percebeis? Percebestes? E repito, pois assinto ao aforismo enquanto escrevo: o óbvio não se fala! Essa é a graça! Não, não, acalmai-vos. Não digo que a graça sois vós (apesar de que, do jeito que pareceis baratas tontas, também poderíeis sê-lo). A graça é, novamente, o inefável. É o demonstrar, pelas sutilezas, a posse (do quê?) e, ainda assim, nunca confirmá-la, pois confirmá-la seria denunciar-lhe a ausência.

É um texto de louco, dir-me-ão com certeza. E devo concordar. O homem (ou a mulher, para aqueles que não pressupõem prontamente que num homem se subentende uma mulher) preocupado com os fatos reais não chegaria a isso de forma alguma. E devo admitir que há de suceder um genuíno estranhamento para chegar a essa loucura também. O estranhamento divino da consciência de um corpo. Devo adicionar um quiçá ao final dessa frase. Afinal o delírio é ainda mais incerto que as realidades tão confiáveis às quais nos seguramos. É um reconhecimento de estar à mercê do todo, num gesto de apreciar-se minúsculo, como um corpo inexato e limitado, que oscila e vibra enquanto lhe é permitido. E haja fé para isso!

A dança da vida é isso: uma dança. E tão pronto termina, está terminada. Eu acho muitas coisas e, enquanto as achar, viverei. Um dia, acharei tanto que não restará nada. E aí estarei morto. Coitados são aqueles que, mesmo enquanto ainda (se) achavam, cessaram sua existência. E eu, tanto por desses achar coisas quanto por temer um futuro comum, sinto-me obrigado a fazer da minha voz a deles. Entretanto, naturalmente, não há o que ser dito, pois as suas ideias não pertencem a mim. Eu não os sou. E, daí, não resta nada.

É uma lástima sem tamanho. Uma existência que não volta, de um corpo que cessa, e que nós, temerários, tentamos virtuosamente reavivar por meio dos registros. Sim, os registros de uma vivência. Do tipo que lemos na breve biografia introdutória de livro ou mesmo na lápide de figuras históricas. Normalmente nelas constam pontos importantes da trajetória profissional e pessoal, como vós deveis saber, assim como produções marcantes que fazem aquela vida digna de tomar o tempo do refém que a está conhecendo. Poderia chamar esse processo, especialmente quando há reconhecimento íntimo do agora espectador com a obra – termo que aqui uso como sinônimo da vida e da produção do finado apreciado –, de a continuidade da vivência do artista, cuja consciência passa a ser incorporada por outro corpo, o do observador. Esse processo também é refletido nas instituições, numa relação menos íntima. É a nomeação de uma sala na faculdade de direito, de um viaduto na cidade ou até a construção de uma escultura ou a composição de uma mostra em homenagem a um célebre fellow ser humano. Queremos acreditar que o personagem está ali, vivo, encarnado naquele objeto (meta)físico e que, por isso, continua. A confiança é tremenda. Tanta que nos baseamos nos registros deixados por aqueles que nem sequer conhecemos para muito do que vivemos, como se isso representasse uma continuidade de suas vidas, tão prosaicas quanto as nossas, no que eminentemente chamamos de legado – que palavra estonteante! Cria-se um elo entre o passado e o presente, um chão sobre o qual pisam os seres humanos de hoje e que nos presenteia com o sentimento de pertencimento, a coletividade. Preciso citar a construção de nações ou a relação já está suficientemente óbvia? Não quero falar sobre história, apesar de o tema ser intrínseco ao que apresento aqui. O que quero é relembrar que essa adoração gira em torno da produção de legado, o qual somos incessantemente direcionados a valorizar e cultivar. Caso contrário, o que tereis produzido vós para aqueles que vos sucederão?

E aqui surge, triunfante, Álvares de Azevedo. Numa vivência tão diminuta quanto alfinete em palheiro, não perante a história humana, mas somente ante o tempo que transcorreu desde seu nascimento, na primeira metade do século XIX. Uma vida de broto floral cujo aroma petulante escapou às garras do corpo noviço e cujos matizes tingiram ascendentemente, em comedida labareda, o alvor de seu voo ainda encoberto. Um corpo que, ciente do perigo de viver, adianta-se e arquiteta seu olor antes mesmo de tornar-se flor, antes de preocupar-se com o reconhecimento e com o registro de seu trabalho por outros, com a publicação. Dono de retrato impetuoso guiado pelo olhar em chamas de quem viveu as orgias byronianas e, mesmo assim, ansiava por mais. Insubmisso ao fúnebre cale-se e injustiçado por não ter tido momento de glória que não a tragédia ilíaca que o sepultou. Um retrato que, apesar de permitir inferir diversos de seus traços, lembra-nos que não o conhecemos. Um retrato do não Álvares.

Podemos dizer que o medo é a consciência dos riscos de uma ação, ou ao menos a suposição de tais riscos, diante das incertezas de uma vida? (Ou, especialmente, devido à incerteza que uma vida traz?) Como se soubéssemos que, ao parar de viver, estaríamos cedendo a possibilidade de produzir o novo, e, portanto, de realizar os afãs pelos quais os mais inquietos anseiam. Da mesma forma que Aquiles sabia que a possibilidade de viver estava condicionada à grandiosidade de suas batalhas futuras, de forma que valeria a pena morrer caso esse desejo fosse concretizado, pois não haveria fortuna maior a alcançar.

Uma consciência, confeccionada por centenas de milênios de evolução para prevenir a morte prematura e assegurar a completude do ciclo de uma vida humana e de suas pressupostas obras, garante o temor. A morte de Álvares, pois, dói-nos mais pelo questionar que não encontra limitante para o potencial futuro do poeta, tamanha a antecipação do fim de sua capacidade de realizar.

Assim posso culminar, caros leitores, ao trazer à luz que a legião que sofre com a possibilidade é uma legião de temerosos da morte azevediana. A multidão, ao erguer e conservar estátuas, construir e manter uma faculdade de direito – a instituição da permanência, que nos rege antes de nascermos e após morrermos –, mostra seu temor pelo fim de suas vidas diminutas e se refugia no sólido e na tradição. A criação dos ritos e mitos da dogmática franciscana nasce, ainda no século XIX, do receio de irem-se, assim como seus antecessores, sem demonstrar que antes estiveram eles ali; e que anteriormente eram eles os capazes de criar. Estareis vós, ao exaltar esse passado, independentemente do prisma utilizado para seu enfoque, a repetir a fuga pela sobrevivência. Pois o busto de Álvares de Azevedo, que recebe os alunos e estampa o Largo São Francisco, é, antes de tudo, uma declaração de que os seus criadores e mantenedores são avessos à morte azevediana.

A realidade dos advogados e juristas, naturalmente voltada à determinação e reformulação das regras que nos regem, estabelece-se nessa angústia. E, como obreiros que são, os receosos farão da práxis institucional o desvelamento de retratos. Pouco notam: o virtuoso desvelar acontece com a plateia, tão esperançosa e curiosa de seu futuro quanto poderia ser. Temerosos, acima de tudo. E digo temerosos, não temerários, embora assim vós vos chameis, pois, às vezes, o nome que nos damos sinaliza o avesso de quem somos.

O Largo pode, então, assumir-se enquanto palco do que se chama de espetáculo dos temerários, no qual atuamos harmoniosamente pelo bem de nossos homenageados rochosos. Que assim continuemos, até que os versos de Álvares sejam tão nossos quanto de mais ninguém, pois teremos terminado.

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

[…]

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã…

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!

(AZEVEDO, 1862)

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