
Por Giordana Catelli
Eu achei que havia morrido.
Minhas pernas já não andavam mais. Meus dedos já não me eram úteis e meu nariz já não respirava.
Meu coração nunca mais bateu. Mas eu ainda estava viva.
Antes de parar, meu sangue pulsou muito rápido. Parecia que ia explodir. E talvez tenha explodido mesmo. Talvez tivesse sido melhor assim.
Seja lá o que aconteceu, eu nunca mais me movi.
A princípio, agradeci pela vida. Pela oportunidade de me recuperar. Mas nunca me recuperei.
Primeiro, passei por diversos procedimentos. Me disseram que seriam para me conservar.
Depois deles, fiquei com um cheiro forte.
Eu me sentia enjoada, mas o cheiro nunca sumiu, então me acostumar com o mal-estar com o tempo.
Foi difícil no começo, mas eu ainda tinha esperança de voltar a me mexer.
Então, começou a fisioterapia.
Eu ficava de pé, e paredes de vidro me seguravam para que eu não caísse. Não entendia muito bem como funcionava, mas acho que eu só sairia de lá quando conseguisse fazer isso sozinha.
Perdi a conta depois de um tempo. Mais tarde, ouvi alguém dizer que já havia se passado trinta anos.
Eu imagino que fosse para o meu tratamento, mas me sentia em uma vitrine. Exposta. Muitas pessoas me encaravam o dia todo. Acredito que estavam buscando formas de me ajudar, mas eu não gostava.
Com frequência, esses homens tocavam meu corpo.
Muitas vezes, eram violentos. Outras vezes, com uma delicadeza que me confundia. Arrumavam meus braços, minhas mãos, minha cabeça. Colocavam coisas sobre mim. Me beijavam.
Eles davam risada quando mexiam comigo. Talvez estivessem animados em tentar me ajudar. Talvez tivessem feito algum progresso.
Não era minha intenção reclamar, mas eu me sentia desconfortável. Parecia que a piada era eu.
Por fim, acho que desistiram de mim.
Agora, pelo menos, posso ficar sozinha.
Só gostaria de poder descansar, pois não sei quem é Raimunda.
É seu nome que está escrito aqui.
Mas eu me chamo Jacinta.
Não sei onde ela está. Mas, se voltar, terá que me tirar daqui.
Por isso digo que seria melhor se tivesse morrido.