Gabriel Santos Oliveira

A Turma da Mônica é uma das principais expressões artísticas brasileiras e se consolidou no imaginário cultural popular do nosso país. Desde 1959, a série de revistas em quadrinhos criada por Maurício de Sousa impactou a vida de diversas pessoas, seja pelos seus personagens únicos e marcantes ou pelas narrativas criativas, de tal modo que as aventuras da “turminha” perpassam gerações e continuam sendo contadas até hoje, inclusive em outras mídias além das HQs, como mangás e filmes.

Com o advento da série MSP 50, que surgiu para comemorar os 50 anos da carreira de Maurício de Sousa, em 2009 foi idealizada a Graphic MSP, que é uma linha editorial destinada a fazer releituras dos personagens do estúdio, a partir da visão autoral de diferentes artistas. Nesse contexto, foi lançado em 2015, a HQ “Turma da Mônica: Lições” (a continuação do sucesso de 2013 “Turma da Mônica: Laços”), que se trata de uma releitura mais madura e realista dos principais personagens da Turma da Mônica, feita pelos irmãos Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi.

A HQ “Turma da Mônica: Lições” acontece no seguinte cenário: Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão começaram há poucos meses o primeiro ano do ensino fundamental e, após uma de suas “aventuras” resultar em um erro grave, seus pais e a diretora da escola decidem que as crianças precisam encarar uma série de consequências.

Essa obra é um marco nas produções relacionadas ao universo criado por Mauricio de Sousa, pois ela aborda a Turma da Mônica a partir do gênero literário “Bildungsroman”. Esse tipo de gênero, que pode ser traduzido para o portugês como “romance de formação”, é caracterizado pelas narrativas centradas no crescimento moral e psicológico do protagonista e na sua jornada de autodescoberta. Exemplos de narrativas estruturadas dessa forma são: “O Apanhador no Campo de Centeio” (JD Salinger), “O Sol É Para Todos” (Harper Lee), e “As Vantagens de Ser Invisível” (Stephen Chbosky).

Nessa perspectiva, a HQ dos irmãos Cafaggi apresenta uma história sensível, focada especialmente no amadurecimento dos protagonistas, que é impulsionada pelos desafios oriundos do surgimento de uma nova realidade, no caso, a transição do ensino infantil para o ensino fundamental. Nas obras do gênero “Bildungsroman”, a inserção do protagonista em um contexto inédito geralmente o obriga a sair da zona de conforto e a confrontar suas maiores inseguranças. Em “Turma da Mônica: Lições”, não é diferente, pois a obra convida os personagens e os leitores a uma reflexão crítica acerca das bases daquele universo. Qual é o valor da palavra amizade? Qual é a individualidade de cada membro da Turma? Eles sempre serão definidos pelas suas inseguranças e falhas (a menina raivosa, o menino que fala errado, o menino que tem medo de água, a menina que é gulosa)?

Essa abordagem adotada pela história é inovadora ao tornar os personagens da Turma da Mônica complexos e ao romper com os arquétipos imutáveis que os caracterizavam nos quadrinhos clássicos. Também, é uma estratégia de roteiro benéfica, pois permite que os protagonistas tenham um arco e evoluam ao longo da narrativa, o que contribui para o envolvimento da trama. Apesar de todas essas novidades, a essência da obra de Mauricio de Souza é respeitada, pois os irmãos Caffagi tiveram um cuidado imenso em apresentar o jeitinho único de cada personagem da Turma, além de inserir várias referências do universo da obra original, que com certeza os fãs vão identificar e gostar.

Outro aspecto positivo da obra, é o seu lindo desenho, que consegue imprimir uma originalidade a HQ, pois os autores optaram por fazer um traço mais
“realista”, adaptando as imagens originais de Maurício ao “mundo real”. Por exemplo, os personagens da Turma não ficam o dia inteiro com a mesma roupa, os ambientes (escola, bairro do Limoeiro) são bem detalhados, etc.

“Turma da Mônica: Lições” é uma das melhores HQs da série criada por Maurício de Sousa, que, mesmo trazendo uma perspectiva inédita e pautada no
gênero “Bildungsroman”, trata os personagens da Turma com carinho, respeitando as suas características essenciais que cativaram os leitores ao longo de gerações, e isso tudo sem abrir mão da reflexão crítica e do arco de amadurecimento dos personagens. Portanto, é uma leitura obrigatória aos fãs de Turma da Mônica, independentemente da idade!